Diretas Já

Uma 'torneira aberta' de gente toma o Anhangabaú para ter o direito de escolher o presidente

Daniel Tirelli, O Estado de S. Paulo

24 Janeiro 2015 | 16h00

O Vale do Anhangabaú parecia “uma torneira aberta” de tanta gente que chegava para a última e maior passeata das Diretas Já na capital paulista, em 17 de abril de 1984. No meio da multidão, o físico e ativista cultural José Luiz Goldfarb, hoje com 57 anos e professor de História da Ciência na PUC-SP, via com prazer o movimento histórico do qual participava. “Era muito lindo. A gente que estava no movimento, era jovem, acreditava que ia ganhar”, lembra. “Só tinha visto uma cena daquela, do Vale do Anhangabaú lotado daquele jeito, em 1970, quando a seleção tricampeã chegou do México.”

Goldfarb, que sete anos depois se tornaria curador do Prêmio Jabuti, era um ativo militante a favor da aprovação da Proposta de Emenda Constitucional Dante de Oliveira na Câmara dos Deputados, que colocaria um fim efetivo na ditadura, ao exigir o fim do voto indireto para presidente. Esteve no movimento em São Paulo desde o primeiro protesto, que juntou 15 mil pessoas na Praça Charles Miller, em novembro de 1983. “Ainda era pequeno, mas já sensibilizou.”

Há exatos 31 anos, também no aniversário de São Paulo, cerca de 500 mil pessoas se reuniram na Praça da Sé para o primeiro grande comício das Diretas na cidade. Goldfarb, claro, estava lá. “Foi uma loucura, estava superespremido. E foi um momento legal, porque juntou muitos artistas e políticos, como Ulysses Guimarães e Lula.”

O maior comício, no entanto, seria o do Anhangabaú, que reuniu 1,5 milhão de pessoas. E poderia não ter acontecido. “Houve uma certa vacilação, um certo receio se valeria a pena provocar o regime mais uma vez”, conta Goldfarb. Mas, no meio dessa indefinição, ele se viu em uma posição privilegiada para conseguir uma informação que poucos tinham. Na época, Goldfarb trabalhava em um livro com depoimentos de pessoas que conviveram com o físico Mário Schenberg (1914-1990). “Uma das pessoas que queria entrevistar era um senador chamado Fernando Henrique Cardoso”, lembra.

Ele foi até a casa de FHC em Ibiúna, no interior paulista, conseguiu a entrevista e um pouco mais. “Tive de interromper 500 vezes a conversa porque toda hora telefonava Jorge da Cunha Lima (então secretário de Cultura e representante do governador Franco Montoro no Comitê Pró-Diretas) para falar com o FHC sobre a necessidade do segundo comício. Foi engraçado, porque ele pedia para eu desligar o gravador toda vez que precisava discutir com o Jorge. No fim, saí feliz, porque percebi que ia ter.”

Depois do 17 de abril histórico, era hora de acompanhar a votação da emenda, no dia 25 do mesmo mês. Foram 298 votos a favor, mas a proposta não chegou aos dois terços necessários. Goldfarb viu o resultado do Ibirapuera, onde uma multidão acompanhava a votação. “Acabou ali aquele movimento, mas foi muito importante para o País. Não tinha mais volta.” Cinco anos depois, após a eleição e morte de Tancredo Neves e o mandato de José Sarney, os brasileiros finalmente votariam para presidente.

Hoje, o Anhangabaú ainda é palco da história de São Paulo e do País. Lá ocorrem manifestações, como os atos contra o aumento da tarifa de ônibus organizados pelo Movimento Passe Livre (MPL). E também é um local de festas: hoje mesmo vai passar por ali a Pedalada de Aniversário de São Paulo, promovida pela Prefeitura, a partir das 8 horas.

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