Dilma orientou presidente do PT a parar de falar de SP

Gilberto Carvalho também defendeu que problema não seja alvo de 'uso político ou partidário'; para Alckmin, comparação é infeliz

RAFAEL MORAES MOURA , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 02h08

Um dos interlocutores mais próximos da presidente Dilma Rousseff, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse ontem que a onda de violência na Grande São Paulo mata mais gente que o conflito na Palestina.

"Ontem (anteontem) a gente estava alarmado com os mortos na Palestina e as estatísticas mostram que só na Grande São Paulo você tem mais gente perdida, assassinada, do que num ataque nesses. A gente tem de ter consciência disso", disse o ministro a jornalistas, após participar de cerimônia de instalação da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, no Palácio do Planalto.

Carvalho também defendeu que o problema de segurança em São Paulo não seja alvo de "utilização política ou partidária", por se tratar de uma questão "muito grave". "A gente nunca deve vender ilusões, sabe que os problemas se desenvolvem durante longo tempo, criam tal raiz que depois o combate a esse problema e a essas raízes nunca se dá de maneira imediata, abrupta, tão rápida quanto a gente sonharia."

Para o governador Geraldo Alckmin (PSDB), a comparação é "infeliz" e "não merece comentário".

Parceria. Carvalho também falou do acordo com o governo paulista. "O passo que eu quero saudar é que finalmente houve por parte do governo de São Paulo aceitação dessa parceria com o governo federal, todos temos a ganhar com isso, particularmente a população de São Paulo. (A violência) Não é um problema de fácil solução. Temos de ter a humildade de reconhecer a complexidade dessa questão, quando o crime se estrutura, se organiza e se dá um tempo pra que ele faça isso não teremos o resultado tão rápido quanto gostaríamos", afirmou.

"A somatória de esforços vai nos ajudar a resolver sem nenhuma tentativa, não pode haver nesse momento tentativa, não pode haver tentativa de usar uma utilização política ou partidária do tema, é muito grave, suficientemente grave para que não brinque", disse.

Sobre a polêmica declaração do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que afirmou na semana passada preferir morrer a cumprir muitos anos na prisão, Carvalho respondeu: "A declaração do ministro foi dada em um contexto muito especial. Independentemente da declaração do ministro, acho que todo mundo no Brasil infelizmente sabe das nossas condições carcerárias. E eu acho que é dever nosso, de fato, batalhar, lutar e trabalhar para mudar essa condição. Não é fácil a solução. Se fosse fácil, teria sido resolvido já".

Presídios. Carvalho considerou que o ministro Cardozo tem "razão e honestidade em fazer esse reconhecimento" das péssimas condições penitenciárias brasileiras, mas defendeu a atuação do governo federal, em parceria com os Estados, na busca de uma solução.

"Não dá pra ficar insensível naturalmente à condição desse empilhamento humano. A prisão foi feita para um processo de reeducação, não para degradar o ser humano. O importante pra nós é focar a realidade, em alterar essa condição. Insisto que não é simples. Toda a questão prisional, assim como a questão da organização do crime, se torna cada vez mais alarmante", disse.

Bastidores: João Domingos

O governo federal atribuiu as seguidas declarações de ministros próximos à presidente Dilma Rousseff a respeito da violência em São Paulo e do "estado medieval" dos presídios brasileiros às perguntas dos repórteres que insistem em falar nos dois assuntos.

Segundo o Palácio do Planalto, desde que o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, disse na semana passada que preferiria morrer a passar um longo período em um presídio brasileiro, os jornalistas só abordam os ministros sobre isso. Anteontem, Maria do Rosário, a ministra dos Direitos Humanos, também falou do tema. Mas não haveria uma orientação da presidente para que eles falem a respeito.

O Planalto não nega, porém, que houve uma orientação ao presidente nacional do PT, deputado estadual Rui Falcão, para que ele suspendesse a divulgação de notícias nas redes sociais com o registro da violência em São Paulo depois que foi fechado acordo entre o governo federal e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) para uma ação conjunta visando a melhorar a segurança pública no Estado. Desde que o acordo foi fechado, Falcão parou de falar no assunto.

Três pessoas morreram e um estudante de 12 anos foi ferido por bala perdida entre a noite de segunda-feira e a tarde de ontem na Região Metropolitana de São Paulo. Apesar das histórias trágicas, o total de mortos ficou abaixo da média dos últimos dias, que chegou a registrar 17 assassinatos em uma única noite.

O garoto foi atingido no rosto pela bala perdida às 19h40 de anteontem no Jardim Valquíria, zona sul da cidade. Segundo seu pai, ele brincava com outros meninos na rua quando foi ferido. Ele foi levado para o Hospital das Clínicas.

Em Santo André, no Jardim Marek, Anderson de Oliveira Santos, de 24 anos, morreu às 2 horas de ontem. Segundo duas testemunhas, homens em duas motos, com duas pessoas cada, chegaram perguntando "se o bar estava aberto". Em seguida, atiraram em Santos. Dois conseguiram escapar.

Em Guarulhos, Alexandre Ribeiro Novaes, de 28 anos, morreu às 4h de ontem com vários disparos na cabeça. Às 19h40 de anteontem, o comerciante Marcelo Silva Farra, de 40, morreu baleado atrás do balcão de seu bar. / BRUNO PAES MANSO

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