Dilma orientou presidente do PT a parar de falar de SP

PSDB acusa Gilberto Carvalho de politicagem eleitoral; 'temos de ter humildade de reconhecer a complexidade da questão', diz ministro

RAFAEL MORAES MOURA , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2012 | 02h03

Um dos interlocutores mais próximos da presidente Dilma Rousseff, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse ontem que a onda de violência na Grande São Paulo mata mais gente que o conflito na Palestina.

"Ontem (anteontem) a gente estava alarmado com os mortos na Palestina e as estatísticas mostram que só na Grande São Paulo você tem mais gente perdida, assassinada, do que num ataque nesses. A gente tem de ter consciência disso", disse o ministro a jornalistas, após cerimônia no Palácio do Planalto.

Carvalho também defendeu que o problema de segurança em São Paulo não seja alvo de "utilização política ou partidária", por se tratar de uma questão "muito grave". "A gente nunca deve vender ilusões, sabe que os problemas se desenvolvem durante longo tempo, criam tal raiz que depois o combate a esse problema e a essas raízes nunca se dá de maneira imediata, abrupta, tão rápida quanto a gente sonharia."

A reação veio rápida. Para o governador Geraldo Alckmin (PSDB), a comparação foi "infeliz" e "não merece comentário". Já o presidente estadual do PSDB, Pedro Tobias, divulgou nota dizendo ser "lamentável que o governo federal mantenha no cargo um ministro de Estado que se especializou no ofício de degradar o cargo que ocupa para fazer politicagem eleitoral". "A frase revela ignorância e má-fé."

Parceria. Carvalho também falou do acordo com o governo paulista. "O passo que eu quero saudar é que finalmente houve por parte do governo de São Paulo aceitação dessa parceria com o governo federal, todos temos a ganhar com isso, particularmente a população de São Paulo. (A violência) não é um problema de fácil solução. Temos de ter a humildade de reconhecer a complexidade dessa questão, quando o crime se estrutura, se organiza e, se dá um tempo pra que ele faça isso, não teremos o resultado tão rápido quanto gostaríamos."

Sobre a polêmica declaração do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que afirmou na semana passada preferir morrer a passar muitos anos na prisão, Carvalho respondeu: "A declaração foi dada em um contexto muito especial. Independentemente dela, acho que todo mundo no Brasil infelizmente sabe das nossas condições carcerárias. E eu acho que é dever nosso, de fato, batalhar, lutar e trabalhar para mudar essa condição. Não é fácil a solução. Se fosse fácil, já teria sido resolvido".

Carvalho considerou que Cardozo tem "razão e honestidade" em reconhecer as péssimas condições penitenciárias brasileiras, mas defendeu a atuação do governo federal, em parceria com os Estados, na busca de uma solução. "Não dá pra ficar insensível naturalmente à condição desse empilhamento humano. A prisão foi feita para um processo de reeducação, não para degradar o ser humano. Insisto que não é simples. Toda a questão prisional, assim como a questão da organização do crime, se torna cada vez mais alarmante."

Escola. Em audiência na Câmara, Cardozo voltou a falar do tema. "Não podemos ter no sistema carcerário uma escola de criminalidade", disse. "Chefes do crime organizado têm de ir para presídios de segurança máxima, ficar isolados. Pessoas de pequeno potencial ofensivo devem ou seguir um caminho de penas não restritivas de liberdade ou, se forem restritivas de liberdade, colocadas em estabelecimentos que não os transformem em marginais organizados."

Bastidores: João Domingos

O governo federal atribuiu as seguidas declarações de ministros próximos à presidente Dilma Rousseff a respeito da violência em São Paulo e do "estado medieval" dos presídios brasileiros às perguntas dos repórteres que insistem em falar nos dois assuntos.

Segundo o Palácio do Planalto, desde que o ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, disse na semana passada que preferiria morrer a passar um longo período em um presídio brasileiro, os jornalistas só abordam os ministros sobre isso. Anteontem, Maria do Rosário, a ministra dos Direitos Humanos, também falou do tema. Mas não haveria uma orientação da presidente para que eles falem a respeito.

O Planalto não nega, porém, que houve uma orientação ao presidente nacional do PT, deputado estadual Rui Falcão, para que ele suspendesse a divulgação de notícias nas redes sociais com o registro da violência em São Paulo depois que foi fechado acordo entre o governo federal e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) para uma ação conjunta visando a melhorar a segurança pública no Estado. Desde que o acordo foi fechado, Falcão parou de falar no assunto.

Cinco pessoas morreram e um estudante de 12 anos foi ferido por bala perdida entre a noite de segunda-feira e a tarde de ontem na Grande São Paulo. Apesar das histórias trágicas, o total de mortos ficou abaixo da média dos últimos dias, que chegou a registrar 17 assassinatos em uma única noite.

O garoto foi atingido no rosto pela bala perdida às 19h40 de anteontem no Jardim Valquíria, zona sul. Segundo seu pai, ele brincava com outros meninos na rua quando foi ferido. Levado ao Hospital das Clínicas, não corre risco de morrer.

Em Santo André, Anderson de Oliveira Santos, de 24 anos, morreu às 2h de ontem. Segundo testemunhas, homens em duas motos chegaram perguntando "se o bar estava aberto". Em seguida, atiraram em Santos. Praticamente no mesmo horário, outra pessoa foi morta no Jardim das Camélias, zona leste. Os disparos teriam sido feitos de uma moto.

Em Guarulhos, Alexandre Novaes, de 28 anos, morreu às 4h de ontem com disparos na cabeça. Às 19h40 de anteontem, Marcelo Farra, de 40, morreu baleado atrás do balcão de seu bar. / BRUNO PAES MANSO

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