Rodrigo Burgarelli/AE
Rodrigo Burgarelli/AE

Dias após proibição, bingos funcionam livremente em SP

Para entrar não é preciso senha nem ser revistado por seguranças - discrição também não parece ser preocupação para donos do negócio; associação do setor diz que aprovação da lei evitaria ilegalidades

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2010 | 00h00

Sob uma fraca luz fluorescente, cerca de 400 pessoas ouvem atentamente a voz da locutora. As mãos, frenéticas, riscam a cartela a cada dezena anunciada pelos alto-falantes, num silêncio absoluto que impera até o primeiro berro sair de um canto do local: "Linha!" Começa um pequeno burburinho, logo interrompido pelo retorno da leitura dos números. O novo silêncio - bem mais tenso que o primeiro - dura até o grito mais importante, que ninguém ali queria escutar, a não ser saindo da sua própria garganta: "Bingo!"

É a expectativa de quebrar esse último silêncio que mantinha todas essas pessoas no enorme salão do Bingo Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, em plena tarde de quarta-feira. No dia anterior, a Câmara dos Deputados havia rejeitado o projeto de lei que alimentou por muito tempo as esperanças daqueles jogadores - o PL 2.944/04, que previa a legalização das casas de bingo no País. Isso, entretanto, não pareceu abalar em nada a jogatina no sobrado azul de dois andares na Avenida Adolfo Pinheiro, a poucos metros do Terminal Santo Amaro e do Largo Treze, uma das áreas mais movimentadas do bairro.

Para entrar no local não é preciso nenhuma senha especial, revista por parte dos seguranças ou nada do tipo. Apenas um homem de terno ficava na porta da casa e, simpático, dava boa tarde aos rostos conhecidos que frequentavam o salão. Não há muita cerimônia para jogar: os visitantes chegavam, se sentavam em uma das 80 mesas, colocavam o quanto queriam jogar em cima da mesa e esperavam o atendente passar distribuindo as cartelas - cada uma custa R$ 2 e vem com seis jogos diferentes. Aí, são marcados os números sorteados pela máquina de vento - igualzinha àquelas de sorteio de televisão -, até alguém completar a primeira linha horizontal - o que vale R$ 50 ou mais, dependendo do horário - e, depois, a cartela toda.

O prêmio para o "bingo!" varia de acordo com a hora. O Santo Amaro é considerado pelos jogadores uma casa de valores altos: nos melhores horários, quem marcasse todas as dezenas da cartela levava R$ 3 mil, contra R$ 500 dos horários mais baratos. A maior parte dos frequentadores era formada por idosas. Uma delas disse à reportagem que costuma frequentar o local duas ou três vezes por semana, gastando R$ 50 por vez. "Para a gente que é aposentado é só uma diversãozinha", disse.

Fachada. Paga-se um pouco menos no Bingo Teotônio Vilela, que fica em uma rua paralela à avenida homônima, na zona sul da capital. Lá, o bingo vale cerca de R$ 500 durante quase todo o dia - mas nem por isso o local estava menos cheio na sexta-feira passada. A justificativa pode estar nas facilidades oferecidas pela casa - o local tem estacionamento privativo gratuito para clientes, bar e lanchonete, vale-cartelas para os jogadores mais fiéis e prêmios extra a cada duas rodadas.

Discrição não parece ser algo tão necessário para o funcionamento do negócio. Além do movimento intenso de clientes, que vai até a madrugada, a casa onde funciona o Teotônio é toda decorada com bolas de bingo gigantes na parte superior da fachada, que podem ser vistas até por quem passa pela avenida - só não há placas, como acontece também no Santo Amaro.

Dentro, chama a atenção a grande quantidade de "terminais", máquinas eletrônicas que ficam nos cantos do salão para quem prefere que suas tabelas sejam marcadas automaticamente. Basta o jogador inserir o número da cartela no terminal que a tela mostra quantas bolas faltam para completar uma linha ou uma dezena. Ali, também é possível jogar mais de uma cartela ao mesmo tempo, o que aumenta as chances de ganhar. "Tem gente que joga até R$ 100, R$ 200 por vez. Eu costumo jogar R$ 20, mas hoje ganhei só uma linha de R$ 50. O prejuízo foi grande", disse um jogador que estava no local.

Legislação. Desde o fechamento dos bingos, em 2004, várias casas continuaram funcionando com base em liminares concedidas pela Justiça estadual até 2007. Naquele ano, entretanto, uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) estabeleceu que somente a União e a Justiça Federal poderiam decidir sobre o assunto, o que derrubou a maioria das decisões provisórias que mantinham os bingos abertos.

Para o Ministério Público Estadual, não há dúvidas de que as duas casas visitadas pela reportagem são ilegais. "Quem está ali dentro está praticando contravenção penal. Estão agindo contra a lei e abrindo um precedente enorme a favor do crime organizado", afirma o promotor de Justiça Tomás Busnardo Ramadan, do Centro de Apoio Criminal do Ministério Público de São Paulo. Ele diz que não há liminar expedida para esses dois locais e vai tomar providências para que os bingos sejam fechados o mais rápido possível.

De acordo com o presidente da Associação Brasileira dos Bingos (Abrabin), Olavo Sales, a aprovação da lei dos bingos seria essencial para evitar ilegalidades como essas. "Quando há algo proibido, sempre aparece alguém para explorar."

GÍRIAS DO JOGO

Armar

É quando falta apenas um número para completar um jogo

Bater

É quando alguém ganha. Se um jogador grita "bingo!", ele "bateu"

Terminal

São os computadores que marcam automaticamente as cartelas. Jogos ali podem superar os R$ 100 por rodada

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.