Diário flagra o clima de medo e tensão e o vaivém incessante dos viciados

Crianças usando drogas, seguranças fazendo rondas com porretes e moradores tentando espantar usuários de crack são parte da rotina

O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h04

Segunda-feira. São 23 horas. A Rua Helvétia, coração da cracolândia na Luz, está completamente vazia. Há mais de dez carros da PM em um espaço de quatro quarteirões. Na Rua Dino Bueno, que costumava ser ocupada por até uma centena de usuários de crack, policiais militares passam o tempo matando os enormes ratos que correm pelas ruas. À certa altura da noite, os PMs discutem com um bêbado que insiste em conseguir uma carona no carro deles. "Vá pedir naquela viatura ali", diz o PM, irritado. Durante toda a noite, um caminhão da Prefeitura dá várias voltas no quarteirão, jogando água nas ruas. A reportagem anda alguns quarteirões e encontra viciados espalhados pela região. Na Rua dos Andradas, eles tomam uma quadra inteira. Ali, sem caminhões de limpeza passando, a sujeira só aumenta.

Terça-feira. Por volta das 22 horas, dezenas de luzes piscam na Avenida Duque de Caxias. São quase cem pessoas aglomeradas ao longo da via com seus cachimbos. Viciados percebem que a equipe do Estado fotografa a cena e atiram pedras contra o carro da reportagem. A multidão de dependentes de drogas é espantada por veículos da Força Tática da PM ao longo da noite. Em uma das ocasiões, um policial desce do carro sozinho, enquanto cerca de 50 pessoas andam na frente dele.

Quarta-feira. Da janela do hotel na Rua Guaianases, a reportagem flagra várias aglomerações de viciados. Em todas elas, há crianças no meio. Enquanto os adultos mostram dinheiro para comprar o crack, elas geralmente buscam no chão alguma pedra que alguém deixou cair.

Quinta-feira. O clima de tensão causado pela migração dos viciados em crack cresce na região central. A reportagem caminha pela calçada da Rua Aurora, quando um saco plástico cheio de água, atirado por moradores de um prédio contra os viciados, estoura no chão. Por ali, seguranças andam com tacos de beisebol. Alguns viciados são agredidos por comerciantes e vigias. Ao entardecer, usuários de crack se dirigem à Rua Helvétia - logo, cerca de 200 deles se aglomeram. A PM apenas observa, enquanto as pessoas fumam livremente. Conforme a noite cai, os viciados comemoram a liberdade vigiada de perto por policiais e jornalistas. Começa o chamado "samba da pedra", que se arrasta por toda a noite.

Sexta-feira. Logo de manhã, debaixo da janela do hotel onde a equipe do Estado está hospedada, forma-se uma minicracolândia. O cheiro da droga invade o quarto. Viciados haviam voltado a se espalhar pelo centro após a PM dispersá-los, com uso de cassetetes, da Rua Helvétia. O helicóptero Águia, da PM, sobrevoa baixo a região. O cerco torna alguns viciados agressivos, outros parecem bastante atordoados. Um deles faz um desabafo ao repórter: "Ninguém aguenta ficar sendo tocado para cá e para lá o tempo todo. Onde está o poder público na hora que tem de ajudar a gente?", protesta Alexandro Willian de Oliveira, de 33 anos, usuário de drogas desde 11. / ARTUR RODRIGUES

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