Dia Mundial Sem Carro: SP precisa de política para motos, diz especialista

Pere Navarro, ex-diretor-geral de Tráfego do Governo da Espanha, reduziu pela metade mortes nas estradas no país entre 2004 e 2012

Luciano Bottini Filho, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2013 | 16h47

Pela primeira vez em São Paulo, Pere Navarro, ex-diretor-geral de Tráfego do Governo da Espanha, fica impressionado com a "aventura" dos pedestres em atravessar avenidas ou conseguir um táxi na metrópole.  No Brasil a convite da Arteris, que administra concessões em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina, Navarro foi chamado para compartilhar a experiência de  reduzir em 50% o número de mortes no trânsito no seu país entre 2004 e 2012.  Leia abaixo a entrevista com o ex-diretor:          

Você tem acompanhado a questão de trânsito em São Paulo?

Todos os que trabalham com o sistema de  trânsito seguem com muito interesse em São Paulo.  Os problemas que mais nos chamam atenção são os de mobilidade nas grandes cidades. Talvez o mas importante em São Paulo é o aumento das motocicletas no trânsito. Elas estão se transformando nos protagonistas. E, neste momento, o grande tema para o qual devemos buscar soluções está entorno das motocicletas.     

Isso se dá só no Brasil?

Isso é característico de todas as grandes cidades, na Europa e na Iberoamérica, também. Diante de todos os problemas, aparecem as motocicletas primeiro como uma resposta à falta de condução. As motocicletas são produzidas a baixo custo, o que permite as pessoas terem acesso a elas, mas as vias são desenhadas para os carros. Portanto, temos que nos adaptar à nova realidade da presença das motocicletas.    

E o grande número de mortes nas estradas brasileiras?

O Brasil está em processo de motorização, de aumento de parque de veículos. Quando se aumenta o número de veículos,há também um reflexo no número de sinistros (acidentes e mortes no trânsito). A minha impressão é que esses aumentos de acidentes têm a ver com aumento de renda que as pessoas vivem, mas não podemos deixar as vidas nas estradas. Creio que agora o Brasil está mais maduro, mas cabe agora fazer frente pela segurança viária. É preciso ter um certo compromisso de meios de comunicação e das empresas, a exemplo da experiência espanhola, por quererem ter sua participação como sociedade civil. O problema que se asssola é muito importante para ser deixado apenas nas mãos do governo. A sociedade civil também tem seu papel.    

As políticas de combate aos acidentes de trânsito no Brasil, como a tolerância zero ao álcool ao volante, são efetivas?

Creio que a política brasileira vai em boa direção. Mas o importante de uma lei não é propriamente o que ela diz, mas que se aplique a norma. A eficácia do sistema de autoridade e da polícia é um elemento fundamental. È preciso não só muita educação, formação, e informação. mas também o controle das normas. Elas vão em boa direção, o segredo é conseguir que se cumpram.   

O que a Espanha tem então a ensinar ao Brasil?

A Espanha traz uma mensagem otimista, que é possível reduzir as mortes de trânsito. A cultura entre os dois países é exatamente a mesma. É uma cultura em que se gosta de correr com os carros, queimar gasolina, as festas, a cerveja... Se na Espanha se conseguiu reduzir a metade os acidentes no tráfego, aqui também é possível fazê-lo. Não é fácil, não é rápido e, acima de tudo, isso é uma enfermidade grave, sem tratamento indolor. Por isso, é muito importante o sistema de autoridade para o cumprimento da norma. Em segundo lugar, é preciso ter um sistema integrado. Todo mundo tem sua parte de responsabilidade. Os fabricantes de automóveis têm que fazer veículos mais seguros, os instrutores de autoescolas precisam formar bons condutores, os responsáveis pelas vias precisam mantê-las em boas condições e os motoristas precisam cumprir as regras. Precisamos fazer frente ao disparate dos acidentes de trânsito. Daqui a alguns anos, não se poderá explicar como podemos viver com esse número de vítimas.   

 Qual seria a prioridade no Brasil?

 É o cumprimento da norma, um sistema de polícia e vigilância para os casos de alta velocidade, álcool e uso de cinto de segurança.  E, especialmente,atuação sobre os reicindentes, que são poucos, mas realizam muitos estragos.    

O que mais lhe chama atenção na mobilidade em São Paulo?  

É uma cidade  muito difícil. O transporte está em desenvolvimento, falta mais transporte público, taxi principalmente. O carro não foi feito para a cidade. Há um volume de veículos de deficil gestão e por isso estão aparecendo as motos. E cada vez mais, as pessoas vão procurar as motos. E é preciso redesenhar os sistema viário para esse tipo de veículo individual.   

 O que se pode fazer de infraestrutura para reduzir o impacto do trânsito?

Na Espanha, em um momento dado, houve um fechamento austero para a capacidade de entrada de carros na cidade. O espaço é feito para o transporte público e pedestre. Houve um esforço para acabar com o crescimento da entrada de veículos e, aqui (em São Paulo), ainda é aumentada a capacidade de carros no centro. Na Europa, há muitas bicicletas e elas são promovidas. Aqui as distâncias são longas e há desníveis nas estradas. Falta olhar com carinho os pedestres. Há lugares aqui, em avenidas largas, que atravessar é uma aventura. Falta olhar com mais carinho a segurança dos pedestres, perceber as distância e a velocidade que eles têm para cruzar.

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