Dia de sonhar com R$ 90 milhões na conta

O sorteio de hoje, a partir das 20h, vai pagar o maior prêmio da história em concursos regulares; nas enormes filas, apostadores faziam planos

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2010 | 00h00

Infelizmente, o cigano Ramiro Iovanovich não enxerga no repórter a "aura dourada" característica de quem pode ganhar na Mega-Sena. "Mas você é um homem com saúde, isso vale ouro", diz ele.

Vidente plantonista na Praça da República, Iovanovich conta que já orientou alguns frequentadores de sua barraquinha a fazer apostas, mas, no máximo, no jogo do bicho. "Mega-Sena envolve uma energia maior", diz ele, que usa um lenço de viscose vermelho na cabeça e anelões em todos os dedos, adornados com pedras como (segundo ele) esmeralda, água-marinha e topázio.

A "energia envolvida" no concurso 1211 da Mega-Sena, sorteado hoje a partir das 20 horas, é a maior de todos os tempos em um concurso regular: ontem, no fim do dia, a Caixa Econômica estimava um prêmio de R$ 90 milhões - só perde para os R$ 144,9 milhões pagos no sorteio especial da Mega-Sena da Virada, em 31 de dezembro. Nas intermináveis filas das casas lotéricas, os apostadores sonhavam.

"Eu investiria 90% e aproveitaria a vida com o resto. Mas não deixaria de trabalhar", diz o empresário israelense Guy Levi, de 26 anos, numa lotérica na Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. Levi conta que não joga "nunca". "Estatisticamente, as chances são mínimas. Mas, dessa vez, vim no impulso."

Osvaldo Furukawa, gerente da lotérica, afirma que o movimento ali cresceu 50% desde anteontem e que, nessas ocasiões, "o sistema fica lento, mas todo mundo sempre espera para apostar". "É a única fila que as pessoas têm paciência de encarar."

Ninguém naquela fila cogita ganhar apenas uma parte do prêmio. "R$ 45 milhões é muito dinheiro, mas é só a metade, entende? Não fica completo", acha a gerente de loja Nádia Galo, de 30 anos. "Já que é para sonhar, vamos deixar a mesquinharia de lado", propõe a segurança Rita de Cássia Alione, de 28.

Na lotérica do Shopping Pátio Higienópolis o clima é mais, digamos, filantrópico. "Eu ajudaria muita gente com esse dinheiro", diz o auxiliar administrativo Paulo Ricardo de Castro, de 22 anos.

A maior parte dos que o ouvem na fila faz um movimento afirmativo com a cabeça. "Eu abriria um abrigo e colocaria todos os velhinhos pobres", afirma o instrutor de autoescola Márcio Gonçalves, de 25 anos. "Eu focaria nas crianças", diz a enfermeira Maria de Fátima Lioli, de 32.

"Tudo hipocrisia", acha a publicitária Marina Dorsa, de 32 anos, que estava em um cantinho preenchendo o volante. "Esse povo fica pensando que Deus vai ouvir e dar o prêmio para eles." Assinalando com combinações das datas de aniversário dela e do filho, Marina é taxativa: "Eu gastaria comigo e, depois, com minha família."

Cigano Ramiro não vai apostar. "Tenho uma vida boa", afirma, encostado na grade da praça.

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