Infográfico/Estadão
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Dez bairros concentram 1/3 das mortes causadas por policiais na capital

Todos são da periferia da cidade; na região central só um bairro, o Bom Retiro, registrou mais de uma morte em tiroteio

Bruno Ribeiro e Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

22 Março 2015 | 22h30

SÃO PAULO - Um terço dos 353 casos de morte em decorrência de ações policiais em serviço na capital paulista em 2014 foi concentrado na região atendida por dez dos 93 distritos policiais da cidade – todos na periferia. Isso é o que revela o levantamento feito pelo Estado com base em Boletins de Ocorrência. Em compensação, 21 delegacias da cidade não registraram nenhuma ou apenas uma morte praticada por policiais em serviço.

A disposição territorial dos dados revela o mapa da letalidade policial. No centro da capital, apenas uma delegacia, no Bom Retiro, registrou mais de uma morte praticada por policial em 2014.

Uma das mortes, registrada em 12 de novembro, foi de um homem descrito no Boletim de Ocorrência como “de cor parda, medindo cerca de 1,75 metro de altura, magro, cabelos pretos e curtos e aparentando ter 30 anos de idade”. Os dados descritos no registro apontam ainda que o homem era suspeito de ter assaltado um posto de gasolina da Rua Anhaia, no mesmo bairro. O homem não teve tempo de atirar na polícia depois de sacar a arma, mesmo com um dos policias descrevendo que sua submetralhadora falhou e antes de ser obrigado a sacar o revólver e atirar no suspeito.

A outra morte no Bom Retiro foi no dia 29 de dezembro, na Avenida do Estado, às 5 horas. O suspeito morto teria tentado assaltar um ônibus.

Situação diferente pôde ser observada na zona sul. A delegacia do Socorro foi a única em que não houve o registro de mortes praticadas por policiais. Nas zonas leste e norte não há delegacia em que esse tipo de caso não tenha sido registrado.

Diagnóstico. Diversos especialistas em segurança pública ouvidos pelo Estado apontam a necessidade de melhoria no diagnóstico da situação de cada localidade para reduzir os confrontos policiais. “No caso do controle da letalidade é preciso considerar o onde, o quando e o porquê. Os porquês têm de ser estudados caso a caso, já que, muitas vezes, uma morte está relacionada a uma troca de tiros legítima”, diz o cientista político Guaracy Mingardi.

“Para definir a atuação do policial é preciso entender a dinâmica do local onde ele trabalha. Às vezes, é um lugar mais conflituoso, onde circulam mais armas e há mais assassinatos. Em outras circunstâncias, há mortes unilaterais, que podem estar relacionadas à cultura de um batalhão”, diz Mingardi.

O coronel reformado da PM e consultor de segurança José Vicente da Silva Filho destaca ainda que os policiais envolvidos nessas situações deveriam ter um tratamento diferenciado dentro da corporação. “A letalidade não pode ser considerada um fato normal, ainda que se constate maior reincidência da ação criminosa. Todo policial envolvido em situação de alto risco e de confronto deveria passar por estágio de avaliação psicológica. Uma situação de morte produz efeitos pós-traumáticos, que podem afetar o comportamento do policial na rua com mais ou menos intensidade.”

“Um antigo comandante da PM, o coronel Elizeu Eclair, tinha como norma que, após a terceira letalidade, o policial era movido para outra unidade, como a Polícia Florestal e o Batalhão de Trânsito, em que há menos risco de confronto”, diz José Vicente. 

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