'Deus estipulou tempo aos meus filhos. Só resta aceitar'

Gustavo Gonçalves, de 25 anos, morreu três dias após incêndio que também matou seu irmão Deivis

LUCAS AZEVEDO , ESPECIAL PARA O ESTADO, SANTA MARIA, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2013 | 02h04

Elaine Gonçalves, de 63 anos, é considerada uma mulher forte. Não mede mais que 1,60 metro e, por trás das lentes espessas dos óculos de grau, exibe um olhar firme. Ontem, mais do que nunca, viu ser exigida de si mesma essa força pela qual é reconhecida. Enterrou no Cemitério Municipal de Santa Maria seu segundo filho em menos de três dias.

Gustavo Marques Gonçalves, de 25 anos, que teve morte cerebral na terça-feira após três dias internado no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, foi sepultado ao lado de seu irmão mais velho Deivis Marques Gonçalves, de 33, que morreu dentro da boate Kiss, na madrugada de domingo. Ambos trabalhavam no comércio da cidade.

Gustavo perdeu a vida horas depois de ter a morte cerebral constatada. Foi intoxicado pela fumaça do incêndio na casa noturna e sofreu queimaduras graves durante a tragédia.

Deivis foi reconhecido por parentes ainda no domingo, no Centro Desportivo Municipal de Santa Maria, para onde os corpos das vítimas foram levados após a tragédia.

"Eu criei, cuidei, orei pelos meus filhos, mas Deus estipulou um tempo certo para eles. Então, o que resta para mim é aceitar", afirmou no velório de Gustavo, na capela do Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, em Santa Maria.

Os dois irmãos moravam com a mãe. "Não eram de sair", disse Elaine. Naquele sábado à noite, decidiram não ficar em casa. "Se arrumaram felizes, contentes e eu pensei: 'Vão se divertir, são jovens. Eu fui muito festeira'."

Na manhã de domingo, Elaine acordou com o ruído de seu telefone tocando. Uma amiga pedia que ela ligasse a televisão para assistir ao noticiário. "Quando ligamos a TV, já falavam em 90 corpos", disse.

Desesperada, ela iniciou a busca pelos filhos. Primeiro encontrou Gustavo internado - e foi instruída a viajar com ele para Porto Alegre. "Eu disse que só iria mais tarde, porque precisava encontrar ainda meu outro filho, que eu não sabia onde estava." Depois de passar por vários hospitais, descobriu o corpo de Deivis. O rapaz foi enterrado segunda-feira. Após a morte do primeiro filho, ela acompanhou apreensiva o estado de saúde de Gustavo, que ficou sedado durante a internação.

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