Marcio Fernandes/AE
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Detran, enfim, deixa o Ibirapuera

Órgão ocupou prédio de Niemeyer durante 50 anos; lugar, agora, abrigará o Museu de Arte Contemporânea

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

15 de setembro de 2009 | 08h45

No prédio por onde circulavam 12 mil pessoas por dia – 30 mil perto do fim do mês –, ontem havia apenas 50. Não carregavam formulários de anulação de multas, documentos para retirar 1ª ou 2ª vias da habilitação, nem buscavam agendar exames médicos. Também não formavam filas. Eram todos operários, encarregados de demolir paredes, retirar divisórias, transportar entulho. Foi o primeiro dia desde 1959 sem que houvesse Departamento Estadual de Trânsito (Detran) no Ibirapuera, cujo edifício da antiga sede estadual, projetado por Oscar Niemeyer, agora oficialmente se prepara para receber o Museu de Arte Contemporânea (MAC), projeto que existe desde 2005.

 

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Mesmo com demolição interna em andamento desde 3 de agosto, ao observar o espaço em obras, detalhes restantes nos nove andares ainda remetem à antiga função do edifício – no chão, entre restos de alvenaria, havia placas de carros retorcidas; cartazes caídos da parede ainda indicavam funções burocráticas; e cópias de documentos rasgados resistiam em balcões ainda não retirados do local. "Sem ninguém aqui será mais fácil a retirada de tudo. No último mês, o barulho das obras incomodou, tínhamos reclamações todo dia", contou a coordenadora das obras, a engenheira Silvana de Paula, contratada pela Secretaria de Estado da Cultura, proprietária do prédio. "Foi um sentimento estranho, os funcionários achavam que estavam sendo expulsos."

 

Do nono ao quinto andar, toda a estrutura do antigo Detran – vidros com marca do órgão, placas que indicavam funções como "averiguação de nota fiscal" – já foi retirada. Mesmo assim, resiste no sétimo, no vão agora livre de 2,5 mil m², uma bomba de gasolina, parte da "Cidade Mirim", destinada a aulas de educação no trânsito a alunos da rede pública, que vinham à média de 200 ao mês. Também continuavam lá um modelo de ônibus e exemplos de sinalização de trânsito.

 

Das janelas dos 130 metros da fachada voltada para a Avenida Pedro Álvares Cabral é possível observar uma das melhores vistas do Parque do Ibirapuera. "Não percebíamos, mas trabalhávamos numa repartição diferente", disse um funcionário do Detran, que não se identificou. Pelo projeto aprovado, boa parte da vista será perdida – na frente das janelas está prevista a tubulação de ar-condicionado. Para compensar, um restaurante panorâmico será construído no oitavo andar.

 

Para funcionários dos serviços criados em torno da burocracia do Detran – despachantes, centrais de fotocópias, estacionamentos –, vazios ontem, a revolta era destinada à política cultural. "Quem vai estacionar quando tiver um museu?", reclamava o gerente do estacionamento ao lado, que recebia diariamente entre 700 e 800 carros – ontem, até o meio-dia, ninguém havia parado. "Falimos."

 

A demolição da estrutura interna do edifício deve terminar no mês que vem. Até o fim da semana, a paisagem externa do local também será modificada: o letreiro, em azul e laranja, "SSP - Detran", deve ser retirado. A diretoria estuda qual das cinco unidades receberá as letras. Os objetos restantes serão "todos reaproveitados".

 

Museu

 

A previsão da Secretaria de Estado da Cultura, proprietária da antiga sede do Detran – edifício tombado nas três esferas de proteção ao patrimônio –, é que o novo Museu de Arte Contemporânea (MAC) seja inaugurado em maio de 2010. O espaço expositivo será de 7.409 m², no prédio principal e em uma área anexa, para abrigar as 10 mil peças do acervo. Também será construído um auditório de 400 lugares. Até o fim do ano, além de limpeza da fachada e troca de janelas, a reforma será focada na estrutura do prédio – isso porque, ao retirar o forro do teto, a construtora responsável pela reforma e adaptação, a Simétrica, descobriu que as vigas metálicas de sustentação do edifício estão avariadas. Por infiltração de água, o metal, revestido de madeira, enferrujou e terá de ser restaurado. O investimento total na obra é de R$ 54,4 milhões.

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