Detidos na Reitoria, alunos ficam em ônibus e pagam fiança de R$ 545

Eles optaram por falar só em juízo; delegado prevê indiciamento por dano ao patrimônio público e desobediência à ordem judicial

O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2011 | 03h02

A ocupação da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), iniciada no dia 1.º, terminou ontem com a ação da Tropa de Choque da Polícia Militar e a prisão de 73 estudantes: 63 estavam dentro do prédio e dez, fora - três foram liberados em seguida por não estarem envolvidos na ocupação. Ninguém ficou ferido, mas o clima de tensão continuou na universidade, com aulas suspensas, assembleias estudantis e barricadas na entrada de prédios. A PM disse que manterá dois pelotões na área por tempo indeterminado.

A desocupação teve início às 5h10, para pegar os estudantes de surpresa. Munidos de cassetetes, escudos e armas com balas de borracha, 400 policiais arrombaram um portão que dá acesso à Reitoria. O prédio, de 6 andares, foi cercado e o efetivo usou diversas entradas para ir de encontro aos estudantes, com apoio aéreo de dois helicópteros Águia. "Deita! No chão, com a mão na cabeça", gritavam os PMs.

Às 5h25, grande parte dos alunos já havia sido retirada. Na saída da Reitoria, policiais chegaram a impedir um deles de cobrir o rosto: "Não quer aparecer?", disse. Manifestantes ainda fizeram um protesto, com palavras de ordem contra a ação. Dois tentaram furar o bloqueio dos PMs. Um foi detido. Duas viaturas tiveram os vidros quebrados.

O efetivo empregado pela corporação, segundo o comando no local, foi necessário para garantir a integridade física de todos. "Esse efetivo foi deslocado para a universidade justamente para que tudo ocorresse pacificamente", afirmou a coronel Maria Aparecida de Carvalho.

Três dias antes da reintegração, policiais do Choque foram treinados, em sucessivas reuniões, para não responderem a ofensas e provocações. Uma das estratégias foi não levar armas de fogo, para evitar uma imagem opressora. O choque deixou a USP às 14h30.

Ônibus. Os alunos detidos foram revistados, embarcados no ônibus da Polícia Militar e levados para o 91.º Distrito Policial.

Entre os presos, havia quatro funcionários da universidade - uma diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp). Os demais eram estudantes, principalmente dos cursos de Ciências Humanas, e simpatizantes da principal reivindicação dos manifestantes: a expulsão da PM do câmpus.

À tarde, uma passeata com 150 estudantes marchou do câmpus até a delegacia. Eles chegaram gritando palavras de ordem contra a PM e a favor dos detidos: "Libertem nossos presos! Libertem nossos presos!" Todos pararam na porta. A entrada foi impedida pela Força Tática e pela Rocam, que montaram uma barreira com escudos e cassetetes.

Foi também durante a tarde, por volta das 13 horas, que a polícia ofereceu aos detidos no ônibus a oportunidade de sair do veículo - uma das reclamações dos pais dos estudantes, que chegaram logo cedo ao DP. Fazia sol e calor. Mas os alunos, desde as 8 horas dentro dos coletivos, decidiram ficar. Os pais levaram lanches, água e cigarros para eles. Alguns diziam que seus filhos eram apenas "meninos".

Os alunos chegaram a pisar no painel do ônibus, acendendo alertas luminosos e sonoros. Um policial repreendeu a rebeldia e foi xingado por uma mãe. A mulher, que preferiu não comentar, foi detida por desacato.

"Aqui a gente pode fumar e ver o céu. A gente não é bandido. Isso é um ato político", disse Felipe Blanco, de 23 anos, sentado no banco de motorista do ônibus da PM. Ele é aluno de Letras da PUC e participa da manifestação desde a ocupação do edifício da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), no dia 27 de outubro. "Chegaram quebrando tudo, colocando joelho na cabeça e chutando calcanhar até sangrar", disse, sobre a ação do Choque.

De acordo com o delegado Dejair Rodrigues, eles seriam indiciados por dois crimes: dano ao patrimônio público (pena de 3 anos de reclusão) e desobediência à ordem judicial (pena de 1 ano). Segundo ele, todos disseram que só falariam em juízo.

A Polícia Civil estipulou fiança de R$ 545 (um salário mínimo) para cada um dos presos. O Sindicato dos Trabalhadores da USP arrecadou R$ 35 mil e a fiança foi paga volta das 21h. Os manifestantes foram levados para o Instituto Médico-Legal (IML) para exames de corpo de delito. Às 23h11, o primeiro estudante foi liberado e outros assinavam o alvará de soltura.

Advogados e pais dos invasores alegaram que os estudantes mantinham tudo em ordem, com limpeza, e não depredaram o prédio da Reitoria (veja mais abaixo). "Eles têm uma consciência ecológica, sabe?", disse, sem se identificar, a mãe de uma aluna detida. Ela reconheceu que os estudantes quebraram as câmeras de segurança do prédio, mas classificou o vandalismo como autodefesa: "O que você faria no lugar deles?"

À tarde, a PM mostrou sete garrafas com bombas incendiárias, feitas com gasolina e panos, apreendidas na Reitoria. Também havia seis caixas de morteiros e um garrafão com 5 litros de gasolina. O estudante de Letras Rafael Alves, de 26 anos, um dos detidos, nega que os alunos tivessem preparado as bombas. "Isso foi plantado", reagiu, rindo. Os morteiros, segundo o estudante, eram para avisar sobre a chegada da Tropa de Choque.

Pinturas nos vidros e paredes fazem alusão a uma "oficina" de fabricação de coquetéis molotov. / PEDRO DA ROCHA, CARLOS LORDELO e FELIPE FRAZÃO

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