Detenta não recebe socorro e morre em São Bernardo

Maria das Graças sofria problemas cardíacos e ficou oito horas no chão da cadeia sem auxílio

Josmar Jozino, do Jornal da Tarde,

08 de setembro de 2008 | 10h02

Portadora de problemas cardíacos, a presa Maria das Graças da Silva Bento, 40 anos, da Cadeia Pública Feminina de São Bernardo do Campo, demorou para receber atendimento médico e morreu de enfarte na última sexta-feira, em um pronto-socorro. Um dia antes, ela ficou oito horas deitada, inconsciente, em um colchão de plástico, no pátio da carceragem, aguardando remoção para um posto de saúde. Segundo parentes de Maria das Graças, a presa só foi transferida às 18h30 do dia 4 para um posto de saúde em frente ao prédio do 7º DP de São Bernardo, no bairro do Taboão, onde fica a cadeia. O posto, no entanto, não dispõe de recursos e a detenta foi removida, duas horas e meia depois, para o Pronto-Socorro Central, no mesmo município. Parentes disseram que ela morreu de enfarte do miocárdio às 12 de sexta-feira, 5, e que a família só foi comunicada às 22 horas. A vendedora Tamara Tamires da Silva, 18 anos, nora de Maria das Graças, disse que na quinta-feira a sogra passou mal, foi retirada pelas presas da cela superlotada, às 10h30, e colocada num colchão no pátio da carceragem. Uma caixa foi improvisada como travesseiro para acomodar melhor a cabeça da detenta. Ela foi coberta por um lençol. De acordo com Tamara, sua sogra ficou das 10h30 às 18h30 aguardando a remoção. Outras presas ficaram ao lado de Maria das Graças. Algumas detentas gritaram por socorro e suplicaram para que ela fosse levada rapidamente para um posto médico. Tamara acredita que a sogra estava praticamente morta quando foi removida: "Ela agonizou por oito horas. Estava sem pulsação. Demoraram tudo isso para levá-la ao posto de saúde do outro lado da rua. É vergonhoso." Maria das Graças foi enterrada às 16 horas de sábado, 6, no Cemitério Carminha, em São Bernardo. Parentes de outras presas disseram que a cadeia está superlotada, tem capacidade para 20 detentas e abriga 200. Afirmaram que em uma cela onde cabem quatro presas há 40 e até 60. Contaram que na cela 2, quatro detentas dormem no banheiro - uma delas grávida - e 28, no chão. Familiares disseram que as presas, incluindo as grávidas, não têm tratamento médico. Algumas contraíram o vírus HIV e não recebem medicamentos. Parentes afirmaram que muitas condenadas já deveriam estar no regime semi-aberto. Maria das Graças foi presa por furto em 30 de setembro de 2007. Outro lado  Em nota divulgada domingo, a Secretaria da Segurança Pública admitiu o problema da superlotação. Porém, informou que Maria das Graças foi prontamente socorrida às 18 horas de 4 de setembro. A nota diz que a presa foi encaminhada ao PS Taboão, o mais próximo à cadeia, e que devido ao delicado estado de saúde foi removida à UTI do PS Central, onde foi internada às 21 horas. Informa que ela morreu às 12 horas do dia 5 e que houve dificuldade para avisar os parentes.  Ainda segundo a nota, Maria das Graças recebia tratamento médico há algum tempo, as detentas contam com atendimento odontológico e recebem a visita de dois médicos por semana, sendo um clínico geral e um ginecologista.

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