Destino de F., detido pela 17ª vez, ainda está indefinido

Jovem de 14 anos está há 42 dias na Fundação Casa à espera da medida socioeducativa que deverá cumprir

Suzane G. Frutuoso, O Estado de S.Paulo

09 Março 2011 | 00h00

Detido em flagrante pela 17.ª vez em 25 de janeiro por dirigir um Kadett roubado, o adolescente F.R.A., de 14 anos, que se tornou famoso por furtar carros, completou ontem 42 dias de internação provisória na Fundação Casa. Até agora, a Vara da Infância e Juventude não informou a qual medida socioeducativa ele será submetido. A definição deve sair até a próxima semana.

F. é descrito por familiares e vizinhos como um menino mirrado, de ar debochado, contrário a ordens e agressivo. Esse mesmo garoto, sob a tutela do Estado na Fundação Casa, tem se mostrado calado, observador, disciplinado e, surpreendentemente, tranquilo. Para uns, é apenas mais um infrator. Para outros, vítima de uma sociedade cheia de falhas. O que especialistas concordam é que ele não é o único.

Há uma legião de jovens pelas ruas praticando todo tipo de infração cada vez mais cedo. "Registramos uma média de oito menores envolvidos em crimes por semana", diz o delegado Paulo Arbus de Andrade, titular do 98.º DP, em Cidade Ademar, onde foi registrado o último delito de F..

O juiz Iasim Issa Ahmed, da Vara da Infância de Santo Amaro, também na zona sul, diz que o caso ganhou notoriedade por aparecer na mídia. "O que está acontecendo nesse momento não vira estatística. Muitos meninos e meninas, em tenra idade, estão comprometidos com furtos e drogas", afirma.

A assistente social Solange Rolo Silveira, chefe da Assistência Social da Vara da Infância, diz que houve um rebaixamento na idade dos jovens envolvidos com drogas nos últimos dois anos. "Passou dos 13 anos para os 10 anos." Alguns são usuários até de crack, mas há aqueles que já participam do tráfico, que lhes dá rendimento e promove ascensão social.

E o envolvimento precoce com o crime é também reflexo da adolescência que chega cada vez mais rápido. É o que afirma Berenice Gianella, presidente da Fundação Casa. "A agressividade é um fenômeno da adolescência, uma fase de contestação de valores e autoafirmação. Se a adolescência começa mais cedo, a violência também se manifesta mais cedo", diz.

Na Fundação Casa, a média de idade dos internos fica entre 15 e 17 anos. Os de 12 a 14 anos, faixa etária de F., são poucos. Mas eles estão lá, quase sempre por furto, alguns já envolvidos com tráfico. O número de jovens na instituição cresceu nos últimos dois anos, passando de 5,4 mil para 6,9 mil, apesar de a reincidência ter caído de 29% em 2006 para 12,8% em 2010.

Detenção. Em uma das vezes que F. foi detido dirigindo um carro roubado, sua mãe, uma diarista de 44 anos, estava ao lado, no banco do passageiro. A situação comprova que há uma aceitação da família em relação às infrações que ele comete. "Muitos pais não percebem que eles precisam criar juízo primeiro para o problema da criança acabar", diz a assistente social Solange, da Vara da Infância de Santo Amaro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.