Despojamento cria 'órfãos' de Bento XVI

Novo estilo preocupa de comerciantes a prefeita

CIDADE DO VATICANO, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2013 | 02h03

Nada de cruz de ouro, apetrechos dourados na roupa, sapato vermelho ou carros de luxo. A ordem é do papa Francisco, em um esforço de trazer a Igreja mais próxima do povo. Mas se as iniciativas causaram elogios, não são poucos os que se queixam: os "órfãos" de Bento XVI, que justamente aceitou e deu certo valor a ritos, ornamentos e imagens. Vendedores, comerciantes, alfaiates e até uma prefeitura estão hoje preocupados com as atitudes do novo papa, que já significam prejuízos.

A austeridade vem deixando uma parte da economia das ruas próximas do Vaticano com saudade das épocas de pompa. Francisco deixou de comprar e, com seus duros recados, assessores, religiosos e dezenas de bispos optaram por seguir as palavras do chefe.

Um dos afetados é o sapateiro que ganhou fama internacional ao fabricar os sapatos vermelhos que Bento XVI usava nos eventos importantes. O peruano Antonio Arellano mantém, há 15 anos, loja em uma das ruas próximas do Vaticano. "Acho que não será para esse (papa) que vamos vender", admitiu.

Quem também não está nada satisfeita é a gerência da loja que há séculos fornece as roupas aos papas. Durante o conclave, os Gammarelli anunciaram que estavam colocando à disposição três tamanhos de roupas. Mas Francisco foi taxativo no momento de sua nomeação: "Acabou o carnaval". E nada de vendas. O mesmo impacto foi sentido por lojas e fornecedores de arte religiosa e ornamentos - agora em queda.

Pior para a cidade de Castel Gandolfo, que recebe papas desde o século 19. Neste ano, Francisco já avisou que não vai tirar férias de verão. O problema é que Castel Gandolfo vive da presença do pontífice. Quando ele está lá, a população dobra, os hotéis lotam e sua estada garante a economia local por meses.

Há uma semana, a prefeita Milvia Monachesi não escondia seu desespero e reiterava convites para Francisco pelo menos visitar o local. Só em uma loja mantida por duas argentinas em Castel Gandolfo não há surpresa. "Ele (Bergoglio) foi sempre assim", contou Cristina, uma das donas. "Chegava e pedia a camisa mais simples, a que menos chamava a atenção."

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