Jose Patricio/AE
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Deslizamento em obra da Prefeitura mata criança e grávida na zona sul

Mata Virgem é considerada há anos de alto risco; em junho, desmoronamento de pedra já havia parado construção e causado protestos

Diego Zanchetta e Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2011 | 00h00

Uma grávida de 18 anos e um menino de 3 morreram ontem vítimas de deslizamento de terra na Favela Mata Virgem, área de risco na zona sul de São Paulo. Segundo moradores, sete casas foram soterradas por escombros de uma obra de urbanização da Secretaria Municipal de Habitação no Morro dos Macacos. Duas pessoas ficaram feridas. A Defesa Civil interditou 24 casas construídas no barranco mais íngreme da ocupação.

A tragédia era anunciada. Em 13 de junho, uma pedra desmoronou do canteiro de obras da Construtora Passarelli, contratada pela Prefeitura, e atingiu a parede da residência vizinha à que foi soterrada ontem com a grávida. No mesmo dia, moradores protestaram contra a obra, que foi parada por três dias. "Caía até bloco de concreto no meu telhado", contou a dona de casa Marluce de Oliveira.

A promessa dos engenheiros era de que tudo ficaria parado até que as 78 famílias da área de risco fossem removidas - a Prefeitura afirma que as pessoas não quiseram abandonar a área. Outras 422 famílias já haviam sido retiradas desde o início do ano passado. O coronel da Defesa Civil, Jair Paca de Lima, disse que a obra ficou parada por apenas dois dias. "Tinha de continuar, né?"

Mas não foi o que disseram à reportagem outros funcionários da Defesa Civil da capital e de Diadema. Segundo eles, os blocos de concreto da Passarelli estavam prestes a desmoronar a qualquer momento. O secretário de Habitação, Ricardo Pereira Leite, esteve no local e disse que "o momento é de se preocupar em atender e socorrer as vítimas". "Causas do acidente serão apuradas depois."

Outro fato que pode ter agravado a tragédia é o uso de fossas e tubulações de água nas cerca de 2 mil moradias da ocupação. A Mata Virgem é área de manancial da Represa Billings, cuja invasão data dos anos 80. A área foi desapropriada na gestão Marta Suplicy (PT), em 2004, e risco de deslizamento ali não é novidade: o morro consta no mapeamento de risco divulgado neste ano pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e já aparecia em 2003 em mapa de 119 áreas de risco alto e muito alto.

A Promotoria de Habitação e Urbanismo instaurou inquérito para apurar causas do deslizamento. Uma das dúvidas do promotor Maurício Antonio Ribeiro Lopes é se a administração pública foi negligente. Em março de 2007, a Prefeitura foi condenada a tirar moradores de áreas de alto risco em 90 dias. Mas recursos impediram cumprimento da decisão. / COLABORARAM PAULO SALDAÑA, RENATO MACHADO E TIAGO DANTAS

3 PERGUNTAS PARA...

1. O senhor perdeu a casa?

Ela por enquanto está debaixo da terra. Pode ser que eu consiga pegar, mais para frente, algumas coisas que restaram. Moramos aqui há 12 anos.

2. Como foi na hora do deslizamento?

Estava em casa com minha mulher e meu filho de 8 anos quando ouvimos um barulho forte seguido de muita terra. Na hora só pensei em salvar meu filho. O portão não abria, então empurrei as grades e minha mão ficou toda machucada. Foi desesperador.

3. Achou que ia morrer?

Com certeza. Nós perdemos os pertences, mas ganhamos a nossa vida.

 

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