Designers incentivam o reúso de materiais

Alguns já abrem mão do pagamento de direito autoral e ensinam como fazer peças

VALÉRIA FRANÇA, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h08

Reutilizar materiais descartados é um hábito ainda não incorporado pela maioria da população. Mas alguns designers decidiram dar uma forcinha. Pensando em como combater desperdício e consumo exagerado, eles começam a abrir mão de direitos autorais de peças que produzem com materiais tirados do lixo, como copos de café e embalagens de detergente. E vão além: ensinam o passo a passo do projeto.

São ações individuais, mas que, com a ajuda da internet, cruzam fronteiras e já começam a adquirir contornos de movimento. Em Londres, por exemplo, a designer Nina Tolstrup, do Studiomama, ensina como fazer luminárias, pêndulos e cadeiras com pallets de madeira - um tipo de estrado usado em operações de carga e descarga.

O projeto foi batizado de Pallets Project. Ao acessar o site da designer (www.studiomama.com), o internauta escolhe a peça e paga cerca de R$ 31 pelas instruções. Basta ter disposição para colocar a mão na massa.

Com escritório em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, o arquiteto Maurício Arruda, de 36 anos, virou parceiro do Studiomama. E desde então produz as mesmas peças, entre elas uma cadeira-poltrona, à venda na Coletivo Amor de Madre, nos Jardins, zona sul, por R$ 800.

"O objetivo não é gerar lucro com a peça", diz Olívia Yassudo, de 32 anos, proprietária da loja, que encampou a ideia. "Aviso para os clientes que eles não precisam levar o móvel, que podem fazer um igual em casa baixando (da internet) as instruções."

Copyleft. As peças do Studiomama levam o selo do copyleft, que libera o pagamento de direito autoral pela reprodução da obra - o copyright- com o objetivo de democratizar o acesso ao design. Isso já diminuiu o preço final do produto. "Muita gente ainda acha caro", diz Olívia, que explica que o processo de reaproveitamento do material descartado nem sempre é barato. Além do serviço do marceneiro, a madeira passa por tratamento especial. "O pallet é uma madeira mole, que dá cupim se não passar por um processo químico", diz Guto Requena, arquiteto e adepto do reúso de materiais na produção do design.

O pallet pode ser adquirido de graça no Portão 13 da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp). "Muitos levam para fazer estantes e cadeiras. Depois voltam, orgulhosos, para mostrar a foto de como ficou", diz Marcelo Farnezi, encarregado da sessão de Reciclados da Ceagesp.

Seguindo o exemplo da designer Nina, Arruda também pretende colocar o selo de copyleft em sua luminária René Descartes, feita com embalagens plásticas de sabão líquido.

Copinhos de plástico. Em um processo independente, o estúdio SuperLimão vem trabalhando no mesmo sentido. "Para todo mundo que liga para comprar a luminária Copoleos, feita de copos plásticos de café (veja como abaixo), explico que posso ensinar a fazer a peça", diz Antônio de Mello, um dos sócios do estúdio. "Há sempre quem prefira pagar cerca de R$ 520 pela luminária a ter o trabalho de fazê-la. Mas mostrar que é possível de fato, subverter o uso dos materiais, já é um bom começo para promover uma mudança de mentalidade."

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