Designer de iates trocou a europa pelo rio pinheiros

Premiado na Itália e reconhecido pela indústria no mundo todo, Fernando de Almeida trabalha em prédio da Marginal e treina na raia da USP. Para testar protótipos, segue agora para a Guarapiranga

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2010 | 00h00

Na semana passada, o engenheiro e designer Fernando de Almeida, de 47 anos, saiu do cinema acabrunhado. "De novo, rapaz? De novo?", comentou com um amigo, após assistir a Tropa de Elite 2. Estava revoltado, e não era por causa dos traficantes, da cúpula da segurança vendida, dos milicianos que vira na tela. O que irritou o designer foi o local usado pelos criminosos para comemorar as ações ilegais - um iate, será que sempre tem de ser um iate? Forma "preconceituosa", ele brada, de retratar seu meio de vida.

A revolta é bem-humorada e tem razão simples, prática: desde 1989, Fernando tira dos iates sua profissão. Formado em Engenharia Mecânica pelo Mackenzie, ele se dedica há 20 anos a projetar lanchas, veleiros e catamarãs, além dos "discriminados" iates.

Desenha todas as linhas, o exterior de curvas leves, o interior que lembra cômodos residenciais. Reconhecido internacionalmente - já ganhou, por exemplo, o prêmio italiano Compasso D"Oro, o maior do gênero -, o paulistano do Morumbi foi homenageado em setembro, com lançamento de livro inédito sobre design naval no País (Yacht Design, editora C4), cujo tema principal é ele próprio.

"Para mim, não tem glamour. É um setor que cria empregos como qualquer outro. Já pintei cascos e fiz projetos finais. Quando se tem noção da dureza que é, o glamour fica para trás", diz o designer, que se intitula "arquiteto naval" e que atualmente não tem barco próprio - usa embarcações de amigos para seu principal hobby, as pescarias em rio e mar. "É a vantagem de trabalhar com isso. Foram quase todos projetados por mim."

Fernando viveu duas temporadas na Itália, antes de voltar ao Brasil, em 2003. Lá, trabalhou em estaleiros como o Wally Yachts, conhecido mundialmente por projetos inovadores. Na americana Bertram Yachts, se especializou em interiores - trabalho minucioso, em que toda a decoração é feita sob medida.

Desde que voltou a viver em São Paulo, além de se readaptar ao mercado nacional - 90% dos barcos produzidos são a motor, enquanto na Europa a maior parte é a vela -, Fernando teve de se acostumar com a estrutura, menos desenvolvida na produção náutica. "Há um longo caminho. Vejo como algo bom, um campo a explorar."

Além de projetar para estaleiros de Osasco e Jandira, na Grande São Paulo, e testar, pessoalmente, os barcos em Angra ou Niterói, no Rio, o designer passou a usar também endereço paulistano na tarefa. Há um mês, testou protótipo de lancha (25 pés) pela primeira vez na Represa de Guarapiranga, no extremo sul da capital. "É um espelho d"água extraordinário dentro da cidade. Foi uma ótima experiência", disse o designer, que já teve projetos executados em Mônaco e Miami. "O que prejudica é o esgoto jogado direto na represa, a ocupação desordenada nas margens. Isso tem de mudar."

Mar paulistano. Fernando tem olhar particular sobre a cidade em que vive: mesmo na imensidão do concreto, tenta dar jeito de lembrar do mar - por mais vagamente que seja. Foi na frente do Rio Pinheiros, num edifício na Marginal, por exemplo, que o designer montou escritório. "Pelo menos estou perto d"água. Por mais que dê nó na garganta ao ver o estado do rio."

Em fins de semana, quando a família não está na casa de praia em Angra, Fernando leva os filhos de 4 e 6 anos ao Aquário de São Paulo, no Ipiranga, zona sul. Já foram "mais de dez vezes" - o que levou os dois filhos a decorar os nomes de 150 espécies de peixe, que também são recitados de cor pelo designer. Além disso, ao menos duas vezes por semana, Fernando pratica remo na Raia Olímpica da USP, no Butantã, zona oeste. "Outra daquelas ilhas de paz no meio da cidade."

Interessado também por arquitetura - influência do pai, o arquiteto de residências Eduardo de Almeida -, o designer tem predileção particular entre os estilos dos prédios da cidade. Ele gosta é das "casas-bola", residências esféricas no Itaim-Bibi e no Morumbi, zona sul. "Tudo feito sob medida, exatamente como nas embarcações."

Barcos modernistas. Fernando cresceu em residência projetada pelo pai no Morumbi, construída apenas com blocos de concreto, vidro e fórmica branca - dentro do conceito do movimento brutalista, marcado pela discrição, do qual o pai fazia parte. São conceitos modernos que o designer trouxe para seus barcos. Em seus projetos não há supérfluos. "Os melhores barcos têm linhas simples. Cada elemento está lá por alguma razão."

Embora soubesse desde adolescente que queria viver "do mar", Fernando não sabia muito bem como fazer isso. Para entender, largou uma recém-criada empresa de eletrônicos e zarpou em direção a Barbados, no Caribe, com mochila nas costas e mais nada. "É admirável. Do Caribe à Itália de carona em veleiros. Chegou lá sem conhecer ninguém e conseguiu emprego com projetos navais", conta o amigo Marcus Sulzbacher.

Para definir a paixão de Fernando pelo mar, amigos costumam recorrer a uma passagem ocorrida em 1988, numa viagem de catamarã entre Belém e Fortaleza. Em alto-mar, um peixe voador saiu da água e caiu no casco da embarcação. Fernando foi rápido: pegou o peixe pelo rabo, mostrou-o à tripulação, balançou-o no ar - e o engoliu. Os amigos jamais esqueceram.

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