Desenhistas de 30 países traçam suas cidades em site

Criado por um espanhol, o Urban Sketchers conta com 100 artistas, incluindo três paulistanos

Filipe Vilicic, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

O arquiteto paulistano Eduardo Bajzek tem como hobby mostrar para o mundo como é o dia a dia em São Paulo. Por meio de traços. Seu passatempo é desenhar as ruas, os prédios, os parques da metrópole. Ele já retratou o Mercado Municipal, a Avenida Paulista, o centro. E, pela internet, suas ilustrações são vistas por indianos, japoneses, australianos. Isso porque ele é um dos 100 correspondentes do site Urban Sketchers (www.urbansketchers.com), que faz o internauta viajar pelas cidades do globo por meio de desenhos.    

 

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Idealizado em 2007 pelo jornalista e ilustrador espanhol Gabriel Campanario, que trabalha no jornal americano The Seattle Times, o Urban começou como um grupo de uma rede de compartilhamento (www.flickr.com/groups/urbansketches). Hoje, 2,8 mil membros são cadastrados no endereço.

Após um ano, a ideia cresceu e ganhou um site. No começo, com apenas trinta correspondentes, principalmente dos Estados Unidos e de países europeus. Agora, está no seu limite de colaboradores: 100, de todos os continentes (menos da Antártida, claro), de quase 70 cidades e cerca de 30 países.

Há gente de Nova York, de Sydney, de Moscou. Mas a equipe também conta com desenhistas de lugares menos conhecidos, como um de Nuakchott, em Mauritânia, na África.

Missão. "Mostramos como é a vida de um garoto africano, a arquitetura dos prédios de Nova York, uma favela em São Paulo", conta o fundador, Campanario. "Tudo pelos olhos de artistas que moram nessas cidades e criam retratos muito pessoais. Uma visão diferente da de um turista e de uma forma única, que não pode ser reproduzida, como acontece com fotos."

Segundo Campanario, o sucesso do site se deve a essa viagem que o internauta faz pelo mundo. Um mês após a estreia, a página urbansketchers.com já recebia mais de mil visitantes únicos por dia. Hoje, passou de 5 mil fiéis internautas.

O espanhol ainda tem planos ousados para sua empreitada. "Em dezembro passado, nos oficializamos como uma organização sem fins lucrativos", diz. "Agora, podemos levantar doações para projetos maiores."

Uma de suas ambições será concretizada em julho. É para quando está programado o 1.º Simpósio Internacional do Urban Sketchers, na cidade de Portland, em Oregon, nos Estados Unidos. O evento contará com palestras e workshops, promovidos pelos correspondentes. Comparecerão desenhistas espanhóis, russos, mauritanos.

"Em pouco tempo, começaremos a bancar o trabalho dos colaboradores", espera Campanario. Hoje, os membros não só fazem o serviço de graça, como arcam com suas despesas com lápis, nanquim, papel. "A ideia não é dar um salário. Mas quero ao menos pagar o material e proporcionar viagens para que eles desenhem outros locais." O espanhol também promete organizar oficinas nos países dos ilustradores.

Paulistanos. Três brasileiros reforçam a tropa do Urban. Todos da cidade de São Paulo. O primeiro a cair nessa foi o ilustrador João Pinheiro, que mora em Cidade Líder, na zona leste.

"O Gabi (Campanario) conheceu meu trabalho pela internet e me chamou", lembra. Ele entrou logo no começo do site, em novembro de 2008. "É uma maneira de expor meu trabalho do jeito que eu quiser, sem ter de seguir ordens, como faço quando sou contratado."

O Urban serve ainda de vitrine. "Meus posts são vistos por milhares", comemora Pinheiro. Ele até já recebeu uma oferta de um brasileiro, radicado em Portugal, que quis comprar um de seus desenhos. "Só que ele achou caro demais."

Foi Pinheiro que indicou, a pedido de Campanario, o segundo paulistano. Na verdade, uma paulistana. A artista plástica Juliana Russo, que vive em Pinheiros, entrou há um ano na equipe.

"Gosto de desenhar na rua", conta. "Mostro nossos prédios e casas." Na quarta passada, por exemplo, ela esboçou um casarão da Rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena. A imagem (acima) foi feita para o Estado e, depois, sairá no Urban.

Ganhos. O terceiro paulistano a entrar nessa, o arquiteto Bajzek, chegou a lucrar com um de seus posts. "Vendi um dos desenhos para um internauta."

Porém, não é a grana que o atrai. "O preço foi simbólico, tanto que nem lembro quanto cobrei", diz. "Há vantagens maiores em colaborar."

O que mais o agrada é a experiência de sentar em calçadas para desenhar e, depois, compartilhar o resultado. "Com o trabalho, percebo locais que nunca havia notado, como prédios esquecidos no centro", conta. Além de São Paulo, ele também retrata lugares que visita, a exemplo de Viena e Budapeste.

Já para Pinheiro, não são só os correspondentes que ganham com o Urban. "São Paulo passa a ser mais conhecida por meio dos desenhos", acredita. "A maioria dos estrangeiros não sabe o que é essa cidade. Temos a oportunidade de provar nosso tamanho e de revelar lados desconhecidos da metrópole, que tem pobreza, mas também cultura e história."

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