Desculpe tocar no assunto

Tem coisas que tiram a poesia da vida, suspira a moça. Escaldada por dois casamentos e um "rolo", cada qual mais desastroso, ela sabe do que fala, e chega a ser espantoso que não haja, em seu suspiro, mais que as correspondentes três taças de amargura.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h00

Há também, felizmente, nossas taças de vinho argentino, que vamos bebericando enquanto damos conta do antepasto ("prolegômeno gastronômico", batizou ela), no aguardo da massa que o Pasquale fará vir. O assunto era outro, e o que a fez se desviar foi a sem-cerimônia com que o sujeito na mesa ao lado arrematou a comilança, fazendo a língua circunvagar, em sentido horário, no interior da boca, o que pôs em movimento um calombo a lhe estufar as bochechas, naquela inequívoca operação de deixar tudo em dentes limpos.

"Desculpe tocar no assunto", cortou ela num engulho físico-existencial, ao mesmo tempo em que, também na nossa mesa, a poesia da vida se esvaía pelo ralo do prosaísmo. Dali em diante, fatalmente, enveredamos (ela mais do que eu) pelo recenseamento dos pequenos desastres capazes de converter a mais poética existência na mais vulgar das prosas. No caso imediato, não chegaremos a um acordo sobre o que é pior: aquele repulsivo passeio da língua pelas mucosas ou a mão que se fecha em concha em frente à boca na tentativa de disfarçar a indisfarçável palitada.

A moça, como qualquer um de nós (um pouquinho mais, vá lá), tem suas implicâncias. Por exemplo, é alérgica a quem, na hora de literalmente pôr os pontos nos iii, pinga estrelinhas sobre a vogal. Execra os que, do outro lado da mesa, avançam um garfo e pedem, posso?, uma provadinha no prato alheio, em geral o nosso e bem no instante em que engatilhamos o bote para saborear o último bocado, o melhor de todos. Ela abomina com a mesma força quem tem o hábito de aspergir provérbios na conversação, e mais ainda quem gosta de bonsai, essa desprezível "versão vegetal do anão".

Minha amiga não suporta o pessoal que abraça e balança, engalfinhado num pendular clinch amoroso. Ou quem, nas suas palavras, abraça "ensaboando", a palma da mão a esfregar para cima e para baixo as costas do abraçado.

Ultimamente, a criatura desenvolveu tolerância zero ante a moda de colar na traseira do carro aqueles adesivos com figuras que parecem desenhos infantis, a informar que ali viajam o papai, a mamãe, o filhinho, a filhinha, eventualmente o cão e/ou gato da família. Burro e veado às vezes tem mas ninguém põe, né? - desafia a moça. Provocadora, parou dias desses numa banca de revistas na Oscar Freire e deixou o pobre do vendedor em estado de hebetude ao indagar se não tinha adesivo também para a vovó cadeirante. E ainda tripudiou, enquanto o outro se desculpava: lacuna grave, o senhor não acha?

Algumas de suas idiossincrasias até que são razoáveis. Incluem gente que, sem intenção de beijo, chega a menos de um palmo do rosto do interlocutor, fazendo do papo um evento sujeito a perdigotos. Não menos inaceitáveis são os que terminam a mensagem com um "forte abraço" - "modismo deletério" que ela põe na conta do Pasquale, não o das massas que estamos degustando, mas o Cipro Neto. Mais lamentável que um "forte abraço", só "um beijo no coração", ou em qualquer outra víscera, ou aquele espichado "super beeeijo". E o que dizer, acrescenta, dos que ao se despedirem comunicam que o encontro foi para eles um "prazerão"? Prazerão, Deus meu! O que mais nos reservará a triunfante cafonice vocabular?

No terreno não-verbal, prossegue a moça, são abominações palitar os dentes (com ou sem o biombo da mão) ou passar fio dental na presença de quem quer que seja, o anjo da guarda inclusive. Cortar as unhas em público, ainda que não sejam as dos pés, é cortar também a poesia da vida, e com a rudeza do mais rombudo alicate. Morte lenta e dolorosa, decreta minha amiga, a quem, mesmo na mais integral solidão, assoa o nariz e confere o extrato.

Já chega, interrompo eu: por melhor que seja a causa, não há poesia que sobreviva a certo tipo de enumeração.

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