Desconhecimento e vergonha fazem SP ignorar ''mãozinha''

Em dez cruzamentos da capital paulista, foram observados 515 pedestres e apenas 2 fizeram o gesto para iniciar a travessia

Renato Machado,

18 de agosto de 2011 | 00h46

Um dos objetivos da campanha para aumentar o respeito aos pedestres é adotar em São Paulo o exemplo de Brasília, onde uma pessoa a pé faz um sinal com o braço e os veículos param antes da faixa. Muitos duvidam que isso vá acontecer na cidade de 7 milhões de veículos, embora ainda não dê para tirar qualquer conclusão. Por quê? Porque ninguém faz o gesto para ver se funciona.

A reportagem do Estado visitou nos últimos dois dias dez cruzamentos e permaneceu dez minutos em cada um. Durante esse período, foi analisado o comportamento de 515 pessoas que tentaram atravessar uma rua quando um veículo se aproximava (o número não corresponde a todos que atravessaram). O surpreendente é que apenas duas pessoas fizeram o chamado gesto do pedestre - erguer o braço perpendicularmente ao corpo quando se está sobre a faixa de pedestres.

Não conhecer o gesto e vergonha de levantar o braço no meio da rua foram os principais argumentos das pessoas. "Eu não sabia que tinha de fazer, mas confesso que tenho um pouco de vergonha. Acho que vou esperar alguém erguer o braço e, aí, aproveito a carona", disse a atendente de telemarketing Camila Rodrigues, de 22 anos, que esperava uma brecha para atravessar a Rua Líbero Badaró ontem, na altura da Miguel Couto, no centro.

Na Rua Boa Vista, na frente da Associação Comercial de São Paulo, a administradora Mariane Araújo, de 33 anos, confessou nunca ter ouvido falar no gesto do pedestre. "Eu não sabia desse gesto. Chegou a haver divulgação disso, com propaganda na televisão?", questionou. A resposta é não.

A Prefeitura publicou uma portaria com a orientação no Diário Oficial, começou uma campanha de rádio, mas as propagandas na TV ainda não foram ao ar.

A também administradora Luziane Sartori, de 33 anos, disse que conhecia o gesto, pois foi informada por um repórter que a entrevistou dias antes para pedir sua opinião sobre a campanha. "Eu até fiz o gesto algumas vezes, mas não adiantou, ninguém parou. Então, desisti."

Uma das duas pessoas que fizeram o gesto foi o autônomo Evandro Rodrigues de Souza, de 43 anos. Ele trabalha na Rua Boa Vista e precisa constantemente atravessar de um lado para o outro da via. "A marronzinha daqui que me falou para erguer o braço esquerdo (na verdade, qualquer braço é permitido) e atravessar. Aí, eu comecei." Mas diz que já correu riscos por isso. "Teve um dia que um ônibus foi parar bem em cima, quase me atropelando. Mas o bom é que ele foi multado."

Pesquisa da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) realizada em julho mostrou que 48,6% dos pedestres ainda não conheciam o gesto da "mãozinha". As enquetes foram feitas mais de dois meses após o lançamento da campanha, quando foram colocados orientadores de tráfego (que seguravam as "mãozinhas") nos cruzamentos para conscientizar motoristas e pedestres.

Ajuda nas multas. Na última semana, a companhia intensificou a aplicação de multas para motoristas que não respeitam a faixa - que resultou em uma autuação a cada dois minutos. Mas a própria CET, em nota, afirma que o gesto do pedestre precisa ser mais difundido, até para ajudar na hora da multa. "A CET recomenda aos pedestres que estendam o braço, mesmo onde houver agentes de trânsito. Nesses casos, a ação do pedestre vai ajudar o agente durante a interpretação do desrespeito à travessia das faixas."

A companhia afirma que a mudança de comportamento é contínua e que, por isso, leva tempo para se obter resultados. A CET também diz que o programa foi bem divulgado, em mensagens especiais nos boletos de IPTU, da Comgás e por meio de encartes publicados na imprensa.

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