Desastre no Rio afeta destinos turísticos de SP

Medo leva visitantes a questionar hotéis sobre chuva, deslizamentos e áreas de risco; são comuns desistências e adiamento de reservas

Fábio Mazzitelli, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2011 | 00h00

Desde o último dia 12, data do desastre que matou centenas de pessoas em deslizamentos e enxurradas na região serrana do Rio de Janeiro, ecos da tragédia fluminense se manifestam na forma de medo e insegurança em alguns dos destinos turísticos mais procurados pelos paulistanos nas férias.

De acordo com relatos de empresários e trabalhadores do ramo hoteleiro, mesmo sem um fato em São Paulo que justificasse mudanças de comportamento, os últimos 12 dias foram marcados, em menor ou maior intensidade, por redução da procura, desistências, adiamentos de reservas e muitos questionamentos.

"Tem muita gente perguntando antes de vir se está chovendo muito, se o hotel fica perto de morro ou de rio", diz Monica Fuhrhausser, de 35 anos, dona de um hotel em Barra do Una, uma das praias mais concorridas de São Sebastião, no litoral norte.

"Minha taxa de ocupação não fica abaixo de 80% nessa época. Depois que começaram as notícias (da tragédia no Rio), caiu pela metade em alguns dias de semana. Quem já tinha reservado veio, mas o telefone parou de tocar. Agora está voltando", diz.

Em outras praias de São Sebastião e também em destinos da Serra da Mantiqueira, como Santo Antonio do Pinhal (SP) e Visconde de Mauá (RJ), os relatos são parecidos. "Tivemos na semana passada (retrasada) uma diminuição dos telefonemas, mas está lotando a cada fim de semana. Os hóspedes às vezes perguntam "será que não tem perigo?" Mas nossos números não chegaram a mudar", afirma Renata Pavão, dona de hotel no morro da Praia de Toque Toque Grande. Ela diz ter chamado um geólogo para verificar as condições do local.

"Tivemos 13% de desistências, gente que pediu o dinheiro de volta ou transferiu para outra data. O movimento é 40% menor do que a nossa expectativa", relata Plínio Uchoa do Amaral, empresário do ramo imobiliário e parceiro de seis pousadas localizadas em Maromba e Maringá, refúgios mais conhecidos de Visconde de Mauá. "Quando falam "região serrana do Rio", acho que o pessoal confunde e associa a serra de (Visconde de) Mauá com Petrópolis e Teresópolis. Essa paranoia está interferindo no mercado", diz.

Reação. O que o empresário chama de "paranoia" pode ser interpretado como uma reação natural pós-tragédia, afirma a psiquiatra Alexandrina Meleiro, da Comissão de Prevenção de Desastres da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Segundo ela, a repetição de informações negativas pode levar a uma "histeria", ou medo coletivo, que causa comportamentos mais instintivos do que racionais. Ou seja, identificadas com os fatos, as pessoas se impressionam e tomam decisões emocionais.

"Nos ataques do PCC em São Paulo, teve um dia em que a cidade parou. É impossível você pensar em uma cidade como a nossa parar, mas ela parou. O que foi aquilo, senão "noia", entre aspas, de toda a população com medo dos ataques?", diz.

A psiquiatra afirma que o ideal é se informar sem se "intoxicar" com notícias de um desastre. Alexandrina prevê a volta à normalidade com o passar do tempo. "Hoje, você não vê ninguém com medo de ataque do PCC. Assim que passar essa época de chuva, vai cair no esquecimento e as pessoas vão voltar a frequentar a região serrana, as praias. Felizmente, o cérebro faz esquecer", diz a psiquiatra.

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