Desapropriação ameaça Clube Jaraguá

Há 53 anos funcionando na região, agremiação de 6,5 mil sócios pode ter de ceder sua área para construção de centro de convenções

RODRIGO BURGARELLI , O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2012 | 02h02

Cercado por árvores e montanhas, em um lugar onde se pode ouvir o som de pássaros e esbarrar em capivaras e pavões, o Jaraguá Clube Campestre nem parece estar no meio da mancha urbana de São Paulo. Mas, após 53 anos na zona norte da cidade, toda essa calmaria pode estar chegando ao fim. Sócios denunciam que a área de 550 mil m² do clube está ameaçada pelo projeto da Prefeitura de construir o centro de convenções de Pirituba.

Nos últimos meses, os frequentadores criaram uma página no Facebook, fizeram um abraço coletivo no clube e até organizaram um protesto de bicicleta na Avenida Paulista contra a desapropriação da área do Jaraguá. "Não somos contra o progresso nem contra um projeto que vá trazer benefícios para a região. Mas é difícil encontrar uma área de lazer e de preservação de verde como essa que temos aqui no clube e me pergunto se é necessário mesmo que ela seja incluída no projeto", afirma o vice-presidente do clube, Edvaldo Baptista.

Ele conta que já teve quatro reuniões com o prefeito Gilberto Kassab (PSD) sobre o tema desde o ano passado. Nas três primeiras, ele teria garantido que o clube estava fora do perímetro do centro de convenções, que deverá ser o maior da cidade e é a principal aposta da Prefeitura para trazer a Exposição Universal (Expo) 2020 para a capital paulista. Nessas ocasiões, todas as obras aconteceram no terreno da Companhia City, que tem 4,9 milhões de m² e fica ao lado. Entretanto, na última reunião realizada há pouco mais de um mês, o prefeito teria dito que o clube também deverá ser afetado pela obra.

História. Atualmente, o Jaraguá tem cerca de 6,5 mil sócios, a maioria da região de Pirituba e Lapa. Nos fins de semana, costuma ficar lotado durante o dia e, à noite, vira palco de festas de casamento, bodas ou batizados. Os títulos valem cerca de R$ 17 mil e estão esgotados - há uma fila de cerca de 80 pessoas esperando que algum esteja disponível. "Temos sócios que se conheceram aqui há mais de 40 anos, se casaram aqui, batizaram seus filhos aqui. Por que jogar toda essa história fora?", questiona Baptista.

Outro defensor da manutenção do clube, pelo menos por ora, é o vereador Eliseu Gabriel (PSB), que no ano que vem assumirá a Secretaria de Desenvolvimento Econômico após ter sido indicado pelo futuro prefeito, Fernando Haddad (PT). Essa é a mesma pasta que hoje coordena os estudos sobre o centro de convenções. "É bom que a cidade tenha áreas como a do clube. Além disso, para desapropriar, o clube tem um custo. Esse custo e as ações na Justiça podem fazer com que não seja interessante para a Prefeitura desapropriar essas áreas", afirma Gabriel.

Ele afirmou que ainda vai conversar com o atual titular da pasta, Marcos Cintra, para pegar mais detalhes do projeto antes de tomar uma decisão definitiva do que vai fazer quando for secretário. "Claro que quem vai tomar a decisão é o prefeito. Mas defendo uma solução intermediária. O clube poderia ser parceiro da feira durante sua realização, já que é uma área que tem campos de futebol, área de preservação, restaurante para os frequentadores. Mas o centro de convenções é bem importante para desenvolver aquela parte da cidade."

Em nota, a Prefeitura não confirmou que a área do clube será desapropriada e disse que ainda está avaliando as alternativas.

Debate. Segundo a administração, a escolha do terreno e as vantagens do projeto para a região de Pirituba foram amplamente debatidas com a sociedade local, inclusive com a direção do clube. "Como o projeto está em desenvolvimento, todas as alternativas para a manutenção do clube serão consideradas e terão a sua viabilidade avaliada."

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