Desaparece o original da Bandeira do Brasil

Tela foi levada de Igreja Positivista, no Rio, provavelmente após o temporal de abril

Clarissa Thomé, Wilson Tosta / RIO, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2010 | 00h00

Uma tela do pintor Décio Villares, com o desenho original da Bandeira do Brasil, foi furtada do prédio da Igreja Positivista do Brasil, na Glória, bairro da zona sul do Rio. A obra teria sido levada em abril, depois que parte do telhado despencou durante o forte temporal que atingiu a cidade naquele mês. O caso foi denunciado à polícia, segundo informação do presidente da igreja, Danton Voltaire Pereira de Souza.

O desabamento do teto e o sumiço da tela são o ponto culminante da deterioração que a Igreja Positivista do Brasil vem enfrentando nos últimos anos. Em 2005, Souza já denunciava que o prédio, erguido entre 1890 e 1897, sofria com goteiras e cupins destruíam o piso original do templo.

O edifício de pedra, com a fachada inspirada no Pantheon, foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac) em 1978. Há um processo de tombamento tramitando no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) há cerca de 25 anos, que foi retomado há cinco anos. O parecer técnico do órgão foi concluído, mas ainda falta a palavra da procuradoria jurídica. Só então o processo será examinado pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que aprova ou não a proteção ao imóvel.

Com o tombamento pelo Iphan, a administração da Igreja poderia pleitear a verba federal para recuperação emergencial - calculada em cerca de R$ 2 milhões, ainda em 2005.

Sem a verba, a nave da igreja está interditada pela Defesa Civil Municipal.

A biblioteca, que reúne cerca de 16 mil exemplares, foi coberta, mas os livros estão expostos à umidade. As reuniões de domingo, na qual comparecem menos de 15 pessoas, agora ocorrem numa pequena varanda, em bancos de praça.

Histórico. Além dos livros, a igreja tem em seu acervo bustos de Auguste Comte, filósofo francês fundador do positivismo, telas de Décio Villares com a imagem de Clotilde de Vaux, que representa a humanidade. Um cofre guarda objetos pessoais que foram de Comte - copos, garfos, livros, papéis com autógrafos. Em um armário ainda estão vestes sacerdotais, que não são mais usadas. O bem mais valioso era o desenho original da bandeira.

O presidente da Igreja, Danton Voltaire Pereira de Souza, confirmou o furto da tela, mas não quis dar entrevista. Ele não revelou em que momento foi descoberto o desaparecimento do quadro da bandeira nem a delegacia em que o crime foi registrado. O templo fica na região da 9.ª Delegacia de Polícia (no bairro do Catete).

O delegado Alan Luxardo não se lembrava do registro oficial do desaparecimento. "Se teve comunicação de furto, tem inquérito e está sendo investigado", afirmou Luxardo, que tentava localizar o registro, mas não o havia encontrado até o fim da tarde de ontem.

PARA ENTENDER

De onde veio o "Ordem e Progresso"

A Igreja Positivista do Brasil foi fundada em 11 de maio de 1881, por Miguel de Lemos, inspirado no pensamento de Auguste Comte. Além do prédio do Rio, tem capelas em Paris, Curitiba e Porto Alegre. No século 19, seus militantes, sobretudo os republicanos, defenderam a separação de Estado e Igreja e criaram o atual desenho da Bandeira Nacional, concebido por Teixeira Mendes e executado por Décio Villares, com o lema positivista "Ordem e Progresso".

SÍMBOLOS OFICIAIS DESDE 1822

1822

Bandeira imperial durou 67 anos

15 de nov. de 1889

Rui Barbosa sugeriu desenho inspirado nos EUA

19 de novembro de 1889

Versão definitiva e inspirada no positivismo é adotada

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