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Depressão e álcool no trabalho

Suponha que você ande desanimado, ansioso, irritado, com dificuldade de concentração, pouco assertivo, sem apetite e com insônia há mais de um mês. Vai ao psiquiatra, que diagnostica depressão, prescreve um remédio e sugere uma licença médica de duas semanas. Fácil de colocar em prática? Não! Segundo um trabalho inglês, revelado pelo jornal Daily Mail na semana passada, 70% dos chefes consideram que depressão e ansiedade não são motivos aceitáveis para se faltar ao trabalho.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2015 | 02h01

Apesar da resistência dos executivos e donos de empresas de ver transtornos emocionais como doenças reais, quase um quarto dos funcionários apresenta problemas desse tipo a cada ano. A seguradora de saúde inglesa AXA PPP entrevistou mil gestores e mil funcionários das mesmas empresas para chegar aos resultados. Dado ainda mais curioso: 25% dos próprios chefes admitem já ter enfrentado algum transtorno mental no passado.

Segundo a pesquisa, a dificuldade de lidar com essas questões começa com os próprios trabalhadores. Apenas quatro em cada dez disseram que contariam para seus superiores que enfrentam estresse, ansiedade ou depressão. Por vergonha, medo de ser estigmatizados ou receio de perder o posto, eles manteriam sua condição em sigilo.

Os números revelam que ainda existe muito preconceito no ambiente de trabalho em admitir que a saúde mental é tão importante para os funcionários quanto a saúde física. A depressão é considerada uma das doenças mais comuns nos dias de hoje e o impacto que ela pode causar na vida e na produtividade das pessoas e das empresas é tremendo. Encarar sintomas depressivos como uma mera desculpa para faltar ao trabalho ou um sinal de fraqueza só piora a situação.

Beber até cair. O preconceito com a saúde emocional pode levar milhares de jovens profissionais e seus empregadores a negligenciar outro problema extremamente comum nos dias de hoje: o alcoolismo.

Outra pesquisa, publicada no jornal Daily Mail, mostra que um em cada cinco jovens trabalhadores ingleses considera que tem um problema com a bebida. Foram entrevistadas 4 mil pessoas pela agência de pesquisa Opinium Research. Só para comparação, na população geral, apenas 7% dos entrevistados consideraram que o álcool é um problema em sua vida.

Ou seja, ser jovem e estar trabalhando são fatores que parecem aumentar o risco do consumo mais nocivo de álcool. Quando se considera apenas os homens, 28% dos jovens trabalhadores acreditam que bebem de forma inadequada. Muitos deles não se lembram, por exemplo, como chegaram em casa depois de uma noite de bebedeira, admitem que dirigiram depois de beber ou, ainda, que pegaram carona com alguém que estava embriagado.

Os números da pesquisa foram divulgados depois de um relatório das Universidades de Bath e Essex ter revelado, também na semana passada, que o "binge drinking" (beber de forma exagerada) custa mais de 5 bilhões de libras por ano (R$ 23 bilhões) à economia britânica, gastas com despesas de tratamento, acidentes, prisões e julgamentos. O relatório sugere aumentar o custo das bebidas como uma forma de compensar esse impacto.

Quem bebe com frequência ou de forma mais pesada pode enfrentar prejuízos no ambiente de trabalho. Não é fácil manter a concentração e obter os mesmos resultados em um dia de ressaca. Não são apenas os casos de dependência que provocam esse impacto. Muitas vezes, mesmo bebendo esporadicamente (uma ou duas vezes por mês), as pessoas podem perder o controle e ter seu desempenho abaixo do esperado.

Como o hábito de beber, até de maneira mais exagerada, é amplamente aceito pelos jovens profissionais (até como forma de alívio ou recompensa pela jornada de trabalho), pode demorar muito até que a pessoa admita que está enfrentando um problema. Do ponto de vista dos chefes, muitas vezes, também é difícil perceber quando o álcool começa a afetar a saúde mental dos seus funcionários.

*Jairo Bouer é psiquiatra 

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