''Depois de uma desgraça, logo aparece outra''

Cerca de 43 mil pessoas por ano são vítimas de crimes violentos intencionais no Brasil, segundo dados do Ministério da Justiça. Apesar do número alto, apenas alguns desses crimes ganham atenção especial da mídia - ou por causa da quantidade de detalhes chocantes, ou pela classe social dos envolvidos (quanto mais rica, maior costuma ser o destaque), ou pela falta de concorrente à altura no noticiário.

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

"As pessoas acabam esquecendo de uma desgraça assim, porque logo aparece outra. A mídia não conseguiria dar conta de tudo", diz a designer carioca Daniela Duque, de 41 anos, cujo filho foi morto na saída de uma boate em Ipanema, zona sul do Rio, por um soldado da PM. Daniel Duque levou um tiro na axila e morreu na hora. O soldado Marcos Parreira do Carmo, autor do disparo, era segurança de uma promotora. "O (governador) Sérgio Cabral me chamou para conversar, chorou e se colocou à disposição para garantir a imparcialidade do Ministério Público no caso. Uma semana antes de saber que o soldado seria absolvido no primeiro júri, liguei para o governador e todos os assessores dele. Alguém retornou?"

É comum ver familiares sucumbirem ao mutirão da ajuda, apoiando-se psicologicamente naquilo que parece ser a única possibilidade de alívio para o sofrimento. "Não é fácil resistir a esse "ganho secundário"", diz a coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC, Maria Helena Franco. Para ela, "embarcar na "espetacularização" do crime é perigoso". "A depressão é apenas uma possibilidade, quando familiares da vítima, ou a própria, se dão conta da fragilidade dessa rede de suporte."

Recém-eleita deputada federal pelo PSB, Keiko Ota é uma exceção. Mãe de vítima lembrada desde 1997, quando teve o filho Ives sequestrado e morto, Keiko acredita que conseguiu manter o caso na lembrança das pessoas porque perdoou os criminosos. "Não fiz nada com ódio, rancor, sofrimento. O tempo todo foco na luta por condições de prevenção de novos crimes e a pela diminuição da progressão penal", diz.

O advogado Ari Friedenbach, pai da garota Liana, assassinada com o namorado, Felipe Caffé, em Embu-Guaçu em 2003, diz que "infelizmente para as autoridades esses crimes são estatísticas". O pai de Ari morreu de depressão, a sogra também, sua mulher (mãe de Liana) nunca apareceu na mídia. Ele chegou a fundar uma ONG, dá palestras e tentou se eleger na última eleição. Mas não foi lembrado a ponto de ser eleito.

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