Depois de Nova York, a cidade com mais cônsules no mundo

Vocação para negócios atrai representações estrangeiras a São Paulo - são 99 no total. No País, só perde para Brasília

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2010 | 00h00

Em dez meses de São Paulo, monsieur e madame Sylvain Itté receberam cerca de 2 mil pessoas em casa. O cônsul-geral da França, que chegou à cidade em setembro do ano passado, explica que nem sempre é fácil para um diplomata separar trabalho e vida social. Entre uma anedota requintada e uma flûte de champanhe, Itté pode estar atraindo milhões em negócios.

Segundo ele, 38 dos 40 grupos empresariais mais importantes da França têm representação em São Paulo. Se o foie gras está saboroso, ainda melhor são os inestimáveis retornos que aquele jantar trará em termos de cooperação cultural, científica ou turística. "A gente trabalha o tempo todo, mesmo quando conversa. Não se iluda, a falta de rotina pode ser muito fatigante."

O tráfego de diplomatas em São Paulo é um dos mais intensos do mundo. A única cidade que abriga mais cônsules é Nova York, onde fica a ONU, com 196. Aqui, são 99 - 42 de carreira, 57 honorários. De acordo com estimativas do Itamaraty, há em torno de 550 representantes estrangeiros em missão na cidade.

Segundo Itté, a justificativa pode estar em um aspecto peculiar do Brasil. "A capital, aqui, não é necessariamente o centro do País. Do ponto de vista dos negócios, São Paulo tem uma importância muito maior que Brasília."

No dia da entrevista, o cônsul estava embarcando a mulher e os filhos do casal, de 12, 8 e 6 anos, para uma temporada de férias em Paris (tiraram a foto abaixo na saída). Cristina, a consulesa, nasceu na Pompeia (zona oeste de São Paulo), conheceu o marido na primeira missão dele em São Paulo, há mais de dez anos, e casou-se logo depois. Ela diz que não fazia muita ideia do que seria seu dia a dia como mulher de diplomata. "Se soubesse, nem teria começado o namoro", brinca.

De longe, a vida da consulesa parece incrível: ela mora em uma casa de 800 m² no Jardim Paulista (que já teve como inquilina a ex-prefeita Luiza Erundina), dispõe de um chef de cozinha francês, um motorista bilíngue e costuma comprar ingredientes para jantares no Mercado Municipal de Pinheiros. "Se a lagosta está em promoção, faço à provençal."

Cada criança nasceu em um continente. Abraçados com o pai, à beira da piscina, que tem 100 m² ("mais do que o nosso apartamento em Paris"), Jean Michel , de 8 anos, fala em francês, e Ana Carolina, de 12, responde em português. Alexandre, de 6, nasceu em Camarões. "É complexo", diz Cristina, perto do hall frio da residência consular, que não é adornado por quadros e objetos escolhidos por ela, mas por bandeiras do Brasil e da França. "Quando a recepção é grande, mandamos as crianças para o shopping (Iguatemi, muito perto da casa)."

Conference Call. Ter uma mulher brasileira é uma "vantagem diplomática", diz o cônsul inglês em São Paulo, John Doddrell. A dele é pernambucana. Dilsanete Tenorio, a Dilsa, estava fazendo doutorado na Inglaterra quando conheceu o marido em férias na Itália. "Vim embora, mas ele me escreveu umas cartas tão bonitas..."

A voz de Dilsa entra na sala do cônsul graças a uma conference call. Ela está no Recife, onde John em breve desembarca para uma missão naval. O "welcome party" será no Caxangá Country Club, frequentado pela colônia inglesa local. A experiência com cerimonial é nova para Dilsa. Durante 20 anos, John trabalhou na Inglaterra com política energética, controle de importações, estratégia de comércio e investimento. "Adoro conhecer pessoas diferentes, de outras culturas. E, agora, estou no meu país", diz ela, mais animada com a volta ao Brasil do que com a missão diplomática propriamente dita.

"Na Inglaterra, você diz: "How are you?" e ouve "Fine". Estava com saudade de ouvir respostas maiores", afirma ela, que, mesmo em inglês, tem carregado sotaque pernambucano.

A consulesa conta que só ficou apreensiva quando teve de contar à filha adolescente deles, Caroline, que a família viria morar no Brasil. "Há algum tempo, ela nem dizia que era filha de uma brasileira. Se eu falava em português, ela respondia em inglês. Mas agora o Brasil está na moda, então ela até gostou de contar aos amigos que viria pra cá."

John ouve tudo com um sorriso britanicamente congelado. "Com ela (Dilsa), a parte social em São Paulo vai ficar menos maçante."

Histórias divertidas. Na conversa com diplomatas, percebe-se que eles adoram entreter os circunstantes com histórias acumuladas em missões ao redor do mundo. Um bom exemplo é a experiência do cônsul alemão em São Paulo, Heinz-Peter Behr, quando resolveu aprender português na Bahia, onde desembarcou. "Depois de 15 dias, disse ao professor que ele poderia falar mais rápido, eu já tinha condições de entender. Ele continuava devagar. Só então que eu entendi que não era por minha causa. Aquele é o ritmo local."

Behr assistiu à goleada da Alemanha contra a Argentina no Goethe de São Paulo, rodeado de bandeiras alemãs. Diz que, até 2006, por razões históricas, os alemães jamais ostentariam símbolos nacionais daquele jeito. Qualquer manifestação de nacionalismo podia ser tomada como extremismo e evocar tempos nazistas. "Vencemos esse trauma. Os jovens alemães finalmente aprenderam que não é vergonha torcer em um momento alegre de comemoração para o país." Sobre a exuberante torcida brasileira, e a derrota do Brasil na Copa, ele minimiza diplomaticamente: "O Brasil não é mais apenas samba e futebol."

Para quem não precisa da diplomacia (ou, pelo menos, não o tempo todo), é divertido ver como as pessoas se portam numa festa consular. Na do Dia da Independência Americana - na quarta passada, em que o consulado dos EUA convidou por volta de 2 mil pessoas e foram cerca de 350 -, Mr. and Mrs. John White abraçam todos que aparecem pela frente. Therry, a consulesa, aperta a mão de uma das mulheres que aguardam para cumprimentá-la, enquanto com o outro braço dá soquinhos no ar, à americana, dizendo algo como: "Foi uma das melhores experiências da minha vida (eles estão de partida para Bruxelas)."

Na plateia, a coisa fica um pouco mais descontraída quando John começa o discurso com: "São Paulo é uma grande cidade. Podemos dizer que é a capital..." E um de seus adidos - também inglês - emenda baixinho: "Do trânsito, da fumaça e do barulho!" Risos abafados, quase engasgados, entre mordidas de hot-dog e muffins.

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