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Depois de '5 x Favela', vem aí '5 x UPP'

Cineastas que vivem o cotidiano das comunidades cariocas há décadas levam ao cinema as mudanças trazidas pela Polícia Pacificadora

BRUNO BOGHOSSIAN / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2011 | 03h05

Morador da Cidade de Deus, zona oeste do Rio, há 32 anos, o cineasta Rodrigo Felha sentiu um frio na espinha ao se ver diante de centenas de policiais militares no centro de treinamento da corporação, durante as filmagens do documentário 5 x UPP, no fim de 2010. Quatro meses antes, ele havia passado por uma revista que considerou humilhante: foi obrigado a baixar as calças, se recusou e foi parar na delegacia. "Sempre tive o policial como inimigo, e sabia que aquele homem que fez uma abordagem errada tinha saído daquela escola", conta o diretor. "Me perguntava se algum daqueles policiais poderia me agredir ou agredir um amigo no futuro."

Mergulhados no cotidiano das comunidades há décadas, Rodrigo Felha, Cadu Barcellos, Luciano Vidigal e Wagner Novais - todos moradores de favelas cariocas - mostram por dentro o que mudou na cidade após a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). No documentário, que será lançado no Festival do Rio, no dia 6, eles narram as transformações em curso nas vidas de moradores do morro, nos bairros vizinhos, na polícia e no comportamento de traficantes.

O projeto é uma reedição da parceria dos quatro diretores com os produtores Cacá Diegues e Renata Magalhães, que trabalharam juntos no longa de ficção 5 x Favela - Agora por nós mesmos. Na tela, os cineastas pretendem mostrar uma visão crítica do projeto, sem contaminações sociais ou políticas.

Várias polícias. "Gosto de falar que a vida das pessoas muda de uma maneira brusca, mas nem tanto. As crianças já brincavam livremente nas ruas, mesmo com o tráfico", diz Cadu, que mora na Favela da Maré, na zona norte. A partir da própria experiência, o segmento dirigido por Felha, de 32 anos, analisa as ações da polícia nas comunidades pacificadas, destacando as mudanças no treinamento dos agentes e a reação dos moradores ao novo modelo. "Hoje, existem duas polícias no Rio: a da UPP, que às vezes anda desarmada e fica imersa na comunidade, e a polícia da 'pista', que fica armada com fuzil e está acostumada com o confronto", relata.

"Quando um policial de UPP comete qualquer abuso, infelizmente, toda a comunidade vê aquela polícia antiga voltando, a polícia do confronto."

"A UPP não vem salvar a vida de ninguém. No primeiro momento, ela livra a comunidade daquela polícia truculenta, que invade a favela com o 'caveirão' e deixa mortos pelo caminho", acrescenta Cadu.

Ao filmar a reação dos moradores das favelas, o jovem de 24 anos percebeu que as transformações promovidas pela nova política de segurança estão só começando. A discussão mais frequente nas ruas e vielas não é a ação da polícia, mas a demora para a chegada dos serviços públicos às comunidades.

Conta de luz. "O morador de favela quer ser legal, quer pagar conta de luz, quer ter água e quer se tornar um cidadão. Se antes o Estado não entrava lá porque era perigoso, agora a violência não pode mais ser usada como desculpa", diz Cadu.

Responsável por mostrar o ponto de vista dos moradores do "asfalto" (como são conhecidas as regiões planas vizinhas às favelas), Wagner registrou os primeiros passos para uma integração da cidade. Nas filmagens, ele acompanhou um casal de Copacabana, zona sul, que resolveu conhecer o histórico Morro da Providência, no centro da cidade. Em outro episódio, testemunhou a primeira visita de uma moradora de Botafogo à amiga que vive no vizinho Santa Marta, na zona sul.

"Esse trânsito entre a favela e o asfalto é só o começo. A cidade é de todos, mas ainda não existe uma integração, que só vai ser alcançada quando for possível superar a barreira social e a barreira do medo", afirma. "O primeiro passo é permitir que um grupo conheça o outro."

Alemão. Encerradas as filmagens, em novembro, o grupo decidiu pegar novamente as câmeras para registrar as mudanças inéditas que aconteceriam nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte, ocupados pelo Exército, mas que ainda não ganharam UPP. O dia a dia se transformou no quinto segmento do documentário, que perdeu o título original de 4 x UPP.

"Uma favela da zona sul é completamente diferente de uma da zona norte. Na zona sul, o morador não frequenta a mesma escola e não usa o mesmo hospital do morador do asfalto", compara Wagner. "Na zona norte, os caras da Penha e da Vila Cruzeiro estudam na mesma escola pública, usam o mesmo hospital e vão ao mesmo baile." Ao reconhecer a redução da violência nas favelas pacificadas, os cineastas aguardam os próximos passos da política de segurança.

"Eu entrevistava o secretário de Segurança no Complexo do Alemão, dentro da favela, e ao voltar para casa passava por uma boca de fumo com dezenas de bandidos armados", comenta Cadu. "É uma realidade muito doida, em que a gente discute as transformações da UPP, que ainda não valem para todo mundo."

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