Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Depois de 30 anos, centro de SP volta a ganhar população

Região fechou 2010 com 12 mil pessoas a mais, após 3 décadas de perdas; motivos incluem baixo preço de imóveis e transporte fácil

Elvis Pereira e Tiago Dantas, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2011 | 00h00

JORNAL DA TARDE

A população do centro de São Paulo voltou a crescer. A região terminou o ano passado com 411 mil habitantes, 12 mil a mais em relação ao verificado em 2000, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Habitação. O resultado significa o fim da fuga de moradores da área, constatada nas últimas décadas.

"O número não é tão alto, mas é uma reversão satisfatória", afirmou o secretário de Habitação, Ricardo Pereira Leite. O estudo abrange as moradias em Bela Vista, Bom Retiro, Brás, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Santa Cecília e Sé. Esses bairros vinham perdendo moradores desde o século passado. "Primeiramente, houve uma saída de população de alta renda por volta da década de 50. E, depois, houve investimentos desastrosos do poder público, como a construção do Minhocão, na década de 70, que desvalorizou imóveis", diz o professor Eduardo Nobre, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

O processo de degradação aprofundou-se e, em 1991, o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou queda de 14% no número de moradores nesses locais, em comparação com o registrado em 1980. De 1991 para 2000, o saldo de habitantes tornou a cair: 23%.

Neste ano, estatísticos da Companhia de Habitação de São Paulo (Cohab-SP) constataram a retomada do crescimento populacional ao analisar dados preliminares do último Censo divulgados pelo IBGE no ano passado. Quando abre a janela da sala do seu apartamento na Ladeira da Memória, por exemplo, o professor André Poiato, de 38 anos, vê uma vista de cartão-postal. "Meu apartamento tem visão para o Vale do Anhangabaú. Dá para ver o Viaduto do Chá. É bárbaro", descreve o professor.

Motivos. A reocupação da área central resulta de um conjunto de fatores, na avaliação do secretário de Habitação. Um deles seria o baixo preço de imóveis. "Quando houve a degradação, os imóveis perderam valor e passaram a ser mais atraentes", observou Leite.

Estudantes, recém-casados e famílias de classe média passaram a notar, ainda, a boa infraestrutura do centro, que reúne mais comércio, hospitais e opções de transporte, como o metrô. "Morar no centro significa ficar mais perto de tudo, em vez de atravessar toda a cidade", resumiu o economista Cícero Yagi, consultor do sindicato de habitação do Estado de São Paulo (Secovi-SP).

É o que considera o auxiliar administrativo Davi Lima, de 30 anos, que há um ano e meio decidiu mudar-se com a mulher e os dois filhos para perto do trabalho. Vive na Rua Brigadeiro Tobias, vizinho do Viaduto Santa Ifigênia. Aposentou a moto que usava diariamente para uma travessia de 40 km até Osasco e deixou o carro encostado na garagem. "Dá para fazer tudo a pé. É tudo muito perto. O carro fica para passear no fim de semana com a família", diz.

"Nós últimos 10 anos, teve início uma requalificação", continua Yagi. Ele citou as mudanças de departamentos do governo para a região, além do surgimento de novos prédios, incluindo retrofits (revitalização de fachada). Em três anos, o empresário Marcelo Lara Smith de Vasconcellos, de 28, viu a ocupação de oito prédios comerciais e residenciais na área saltar de cerca de 30% para 100%. E o preço do m² do prédio "retrofitado" subiu até três vezes.

"De 2000 para cá, percebe-se que o centro já não está mais tão abandonado", acrescentou o professor Eduardo Nobre, da USP. "E trazer essa população é positivo porque está revertendo um processo e fazendo o centro ter vida 24 horas, quebrando o estigma de um lugar perigoso à noite. Você começa a ter farmácia 24h, bares, restaurantes."

 

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