Depois de 2 anos, primeiro corpo é retirado do fundo do Oceano Atlântico

Ele foi encontrado junto a destroços do avião, a uma profundidade de 3,9 mil metros; reconhecimento por DNA será feito na França

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE

PARIS

A polícia francesa conseguiu, na madrugada de ontem, resgatar do fundo do Oceano Atlântico o primeiro corpo de passageiro do voo 447, que caiu em 31 de maio de 2009 quando fazia o trajeto Rio-Paris. Os restos mortais foram acondicionados em câmara fria e serão levados para a França, onde serão realizados exames de DNA.

O sucesso ocorreu na segunda tentativa de resgate feita em alto-mar pela equipe a bordo do navio Ile de Sein, que realiza a expedição de busca de destroços do Airbus A330. A operação de resgate dos corpos teve início anteontem, com o auxílio do robô-submarino Remours 6000. Segundo informou a Direção Geral de Gendarmerie Nationale (DGGN), a polícia francesa, o corpo resgatado estava junto dos destroços do avião, imerso a uma profundidade de 3,9 mil metros e ainda preso ao assento da aeronave.

Içados a bordo, os restos mortais (assim como destroços e caixas-pretas) serão transportados agora para a cidade de Caiena, na Guiana Francesa, de onde partirão para a França. "Amostras de DNA foram recolhidas por investigadores e serão transmitidas na próxima semana a um laboratório de análise, a fim de determinar a possibilidade de identificação", disse a polícia. Das 228 vítimas, só 50 foram oficialmente identificadas até hoje.

Durante as operações de busca, vários corpos já foram encontrados - ainda atados aos assentos. A nota da polícia francesa reitera, porém, que a operação de resgate dos corpos é feita em "condições particularmente difíceis e inéditas" e "forte incerteza ainda subsiste quanto à capacidade técnica de resgate dos corpos".

Polêmica. Ao ordenar que as equipes técnicas a bordo do navio Ile de Sein iniciassem o resgate, a Justiça da França não consultou as famílias diretamente interessadas. Isso aconteceu porque os restos mortais são uma peça fundamental do processo judicial que transcorre sob a orientação da juíza de instrução Sylvie Zimmerman, do Ministério Público de Paris. Cabe a ela administrar as investigações, que já resultaram na abertura oficial de inquérito contra a Air France, companhia à qual o avião pertencia, e a Airbus, fabricante do modelo acidentado, por crime de "homicídio culposo". Além da culpa, esse processo determinará as indenizações às famílias de vítimas.

Ainda não se sabe se os corpos que agora forem resgatados ajudarão a definir a dinâmica do acidente. A primeira perícia dos cadáveres permitiu indicar que a aeronave caiu "de barriga" no Atlântico. Isso porque 95% dos corpos analisados pelos legistas de Fernando de Noronha, em 2009, apresentavam fraturas no terço medial das pernas, nos braços e na região do quadril - semelhantes aos verificados em pessoas que caem de grande altura. Na avaliação dos legistas, esse é um indício de que alguns passageiros estariam sentados em suas poltronas no momento da queda.

De acordo com especialistas, provavelmente houve despressurização da cabine, conforme indicou uma das mensagens enviadas pelo avião. Mas não foi 100% possível afirmar que as vítimas morreram por causa disso, mesmo tendo sido achadas petéquias (lesões) em muitos corpos.

Apesar das dúvidas sobre a possibilidade de os corpos indicarem mais algum detalhe, Alain Jacubowicz, advogado da Associação Ajuda Mútua e Solidariedade, observou que "as autoridades fazem o que podem". "Não seria possível deixar os corpos onde estão."

Gasto

US$ 12,5 mi

é o custo estimado desta fase de resgates

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