Depois de 12 anos, 29% vivem sem a droga

Pesquisa da Unifesp acompanhou 107 dependentes. Deles, 27 morreram e 31 estão abstinentes há mais de 5 anos

Karina Toledo, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2011 | 00h00

Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) acompanharam por 12 anos 107 dependentes de crack. Após esse período, 40% haviam parado de consumir a droga, 25% estavam mortos, 12% presos e 20% continuavam dependentes. Entre os que ainda faziam uso frequente, mais da metade estava empregada. Do total, 29% estavam abstinentes havia pelo menos cinco anos.

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Os 107 pesquisados passaram por cerca de três semanas de internação no Hospital Geral de Taipas entre 1992 e 1994. Depois da alta, foram submetidos a três avaliações: após 2, 5 e 12 anos. Ao longo desse tempo, verificou-se uma diminuição no ritmo de mortalidade, o que, segundo a principal autora do estudo, a psicóloga Andrea Costa Dias, revela que os usuários se adaptaram ao contexto de violência do crack e desenvolveram estratégias para minimizar o risco associado ao consumo da droga.

"As mortes por crack são principalmente causadas pela violência. Nossa hipótese é que os usuários foram aprendendo a lidar com a polícia, com os traficantes e desenvolveram estratégias para evitar a overdose e conseguir manter um uso controlado", afirma.

Os dados da pesquisa, continua Andrea, mostram que há diversos padrões de consumo da substância e contrariam a ideia de que o crack é uma droga avassaladora, que mata em pouco tempo e deixa pouca margem para recuperação. "Existe uma aura de terror em torno da droga que acaba estigmatizando os usuários. Isso faz, por exemplo, que os profissionais de saúde se sintam menos motivados em ajudá-los."

O psiquiatra Deivisson Vianna, coordenador de um serviço de referência no tratamento de dependentes de álcool e drogas em Campinas, afirma que muitos têm medo de divulgar esse tipo de dado e, com isso, estimular o consumo. "Se por um lado essa política tem o efeito de afastar muitas pessoas da droga, deixa os usuários tão marginalizados que nem nos serviços de saúde eles são bem aceitos. Isso dificulta o acesso ao tratamento."

Longo prazo. Outra ideia questionada pelos pesquisadores da Unifesp é a de que o tratamento consiste em um período pontual de internação e qualquer recaída após a alta é indício de fracasso. No grupo de dependentes avaliados na pesquisa, a proporção de abstinentes só superou a de usuários após a avaliação de cinco anos - nos primeiros dois anos, a maioria ainda estava usando, mesmo após a alta no Hospital Geral de Taipas. Além disso, muitos intercalaram ao longo dos 12 anos períodos de abstinência e uso da droga. "A internação é apenas uma etapa do processo de tratamento. Geralmente, após um ou dois episódios de internação não há continuidade do tratamento em ambulatórios e isso colabora para recaídas", diz Andrea.

Segundo a autora, não foi possível identificar os fatores determinantes para a recuperação dos dependentes. Mas verificou-se que a interrupção no uso estava associada à busca por outros tratamentos após a internação no Hospital Geral de Taipas, ao aumento na empregabilidade e a atividades religiosas.

"Existe uma pressão na sociedade para que os problemas com drogas sejam combatidos como se fossem uma epidemia de dengue ou de febre amarela. Mas, na verdade, é uma doença crônica", afirma Vianna. Segundo o psiquiatra, é preciso tempo e serviços de saúde bem preparados para motivar os usuários a abandonar o vício. "Não dá para fazer tratamento à força."

Para o cientista social Luiz Flavio Sapori, autor do livro Crack: um desafio social, o dado mais relevante é o alto índice de mortalidade no grupo. "Mais de 30% dos usuários ou morreram assassinados ou foram presos. É um índice muito maior que o de qualquer outra droga e absolutamente preocupante", diz.

Sapori coordenou um estudo na região metropolitana de Belo Horizonte (MG) e constatou que após a entrada do crack na cidade a p

 

orcentagem de homicídios relacionados ao tráfico de drogas saltou de 8% para 33%. "Esta pesquisa, como a minha, mostra que o comércio de crack está muito relacionado à violência urbana. E a maior vítima é o próprio usuário."

Saúde Pública. Após os 12 anos, 43% dos usuários relataram ter sido presos ao menos uma vez. Em média, o tempo de reclusão foi de 1 ano e 8 meses. "Eles passaram mais tempo presos do que em tratamento. Isso nos faz questionar a política repressiva aos usuários da droga. Essa questão deveria ser tratada como problema de saúde pública", diz Andréa.

DEPOIMENTO

Esmeralda Ortiz, jornalista, cantora e autora do livro 'Esmeralda, por que não dancei'.

ABSTINENTE HÁ 13 ANOS.

Os companheiros é que me salvam

"Só larguei o crack porque desejei muito. Tive o apoio de ONGs, como a Projeto Quixote e a Travessia. Essas pessoas entendiam que o vício é uma doença. Passei a seguir os 12 passos do Narcóticos Anônimos, que frequento até hoje. Aprendi que minha vida está sob minha responsabilidade. Por causa da música e da escrita, comecei a ter perspectiva. Tive uma recaída em 1997. Foi quando toda essa rede de apoio me internou em uma clínica, onde fiquei por um mês. Saí fortalecida. Mas, se sinto que posso recair, ligo para meus companheiros e eles me salvam. É uma luta diária."

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