Depois da violência, assédio e esquecimento

Famílias vítimas de casos de repercussão contam como, após a tragédia, viram alvo da ''espetacularização''. Passado o impacto, o apoio desaparece

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

"Não deixa cair no esquecimento, não, tá?", pede o administrador Rafael Cestari, tio do garoto morto há dez dias em uma sala de aula da Escola Adventista de Embu das Artes, na Grande São Paulo. Miguel Ricci dos Santos tinha 9 anos, cursava a 4.ª série e morreu após ser atingido por uma bala de revólver calibre 38. Segundo a polícia, a mochila do coleguinha suspeito de portar a arma foi lavada - o que aumenta a desconfiança.

O caso apareceu na primeira página de todos os jornais, os pais de Miguel foram a programas vespertinos de TV e receberam manifestações de solidariedade do público nas ruas. Roberta, a mãe do menino, conta que o advogado deles foi arrumado pela produção de um dos programas. "Entendo que as pessoas queiram nos confortar, mas às vezes você precisa ficar na sua e vem gente na padaria te abraçar, chorar, dizer palavras bonitas", diz o pai de Miguel, o assistente administrativo Dennys Winston Ricci dos Santos, de 29 anos.

O assédio momentâneo não é garantia de "não esquecimento" nem, como espera o tio do garoto, de que a justiça será feita.

A história recente tem mostrado que os holofotes logo se apagam, o que significa que, muito provavelmente, em breve Dennys Winston se verá livre das promessas de políticos graúdos, voluntários desconhecidos e oportunistas. "Ih, conheço bem esse filme", diz a estudante Priscila Aprígio da Silva, que em 2007 ficou paraplégica depois de ser atingida por uma bala perdida num assalto a banco em Moema. A repercussão fez com que recebesse visita no Hospital Alvorada até do governador José Serra. Aparecia gente oferecendo emprego, docinho, carro. "Aproveitei para pedir tudo o que queria. Fui até batizada pelo pessoal do São Paulo (Futebol Clube)", conta Priscila, que está grávida de nove meses.

Passados três anos, ela se diz esquecida. Conta que precisou procurar a produção de um programa de TV - o mesmo que arrumou o advogado para a mãe do menino Miguel - para que arranjassem um médico que fizesse seu parto. Eles arrumaram. E a médica também apareceu no programa.

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