Paulo Cerciari/AE
Paulo Cerciari/AE

Depois da PM, mortes migram para a periferia nos anos 1980

Longe de diminuir o crime, a truculência da polícia aumentou a desordem na cidade

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2012 | 10h19

A recente eleição para vereador de dois oficiais da reserva da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) mostra como, até hoje, o discurso truculento de combate ao crime tem apelo popular. Quando na ativa, o coronel Paulo Telhada se envolveu em 36 resistências seguidas de morte e o capitão Conte Lopes, em 41.

O excesso de violência virou uma das características da corporação, postura que acabou se estendendo a outros batalhões. Se durante o período do esquadrão da morte as vítimas eram tiradas de presídios, quando os homicídios se tornaram ferramentas do policiamento ostensivo os assassinatos migraram para os territórios das periferias de metrópole.

Matar se transformou em instrumento de trabalho de parte dos PMs que tentavam controlar o crime de norte a sul de São Paulo. Nos anos 1980, em Guaianases, na zona leste, um tenente que pediu para ser identificado apenas como Pereira passou a matar quando percebeu que os suspeitos eram rapidamente soltos nos distritos policiais. Na zona sul, depois de 11 anos agindo de forma violenta ao longo da década de 1980, com inúmeros casos de resistência seguida de morte, o sargento David Monteiro conta que se enxergava como um policial modelo. Só percebeu que estava agindo de forma equivocada quando o comando o afastou da rua para trabalhos burocráticos. "Nesse momento a ficha caiu", recorda. Ele já havia recusado o convite de um justiceiro para matarem juntos.

Em 1960, quando os homicídios em São Paulo ainda eram endêmicos e as autoridades de segurança se dividiam entre Força Pública, Guarda Civil e Polícia Civil, oficialmente foi registrado apenas um óbito cometido pelas forças policiais no Estado. Cinco anos depois, em 1965, foram duas mortes.

A situação começou a mudar em 1970, no regime militar. A PM foi criada e passou a ser comandada por oficiais do Exército. Nesse ano, as mortes subiram para 28, pulando para 59 em 1975, no auge da repressão.

A execução de suspeitos não parou de crescer, revelando o despreparo dos policiais. Só na década de 1980, foram 4.093 mortes. Longe de diminuir o crime, a truculência aumentou a desordem na cidade e acendeu o sinal de alerta. Em vez de aplauso, o excesso pediria ajustes.

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