Depoimentos

''Você abre o jornal e se depara com a sua história''

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Renata Mondelo Mendonça, jornalista de 40 anos, viúva do engenheiro Marco Antonio Camargos Mendonça. Ele também deixou os filhos do casal, João Marcos e Thiago, que tinham 15 anos e 11 meses, respectivamente

"Uma característica cruel da morte sensacional é que ela é pública. Você abre o jornal para ver as notícias do dia e se depara com sua história. É uma dor que não se consegue acomodar.

No primeiro ano, a minha vida parou. Foi um ano inexistente, em que vivi do passado. Ao mesmo tempo precisava tomar providências imediatas - nós morávamos em Belo Horizonte e me mudei para o Leblon, para um prédio ao lado do dos meus pais; tinha de escolher uma creche para o meu filho. Eu trabalhava na Vale havia 9 anos - nos conhecemos num evento internacional, no período em que ele morava na Bélgica -, mas fui demitida dois meses depois da morte do meu marido. Meus planos estavam atrelados a ele.

Tive a sorte que os restos mortais do meu marido foram encontrados. No enterro, senti o alívio pelo ritual de passagem. Antes, eu ainda ligava para o celular dele. Depois do enterro, o fato estava consumado. Naquele ano tive depressão, tomei remédios controlados, engordei dez quilos. No ano seguinte, determinei uma palavra: superação. Eu tinha de dar um novo desenho à minha vida profissional, pessoal, social. Voltei a trabalhar, a ir ao cinema.

No primeiro Dia dos Pais da creche do Thiago, o João Marcos foi representando o pai. No início, o Thiago chamava de pai os pais dos amiguinhos dele. Depois aprendeu que o papai está no céu. Um dia ele me pediu um "novo papai". Eu disse: "Mamãe vai tentar, vai procurar, mas tem de ser um papai bem bacana". Ele respondeu: "Me dá um papai de brinquedo".

Quando vamos visitar os pais do Marco em Minas e passam as nuvens na janela do avião, o Thiago fala: "O meu pai mora aqui". Fiz três álbuns para o Thiago. Um com fotos nossas, desde a época do namoro, para ele saber que nasceu de uma história de muito amor. Outra com cartões, cartas, todas as mensagens que trocamos. E outro com as mensagens que eu recebi do mundo inteiro, de todos os lugares em que o Marco trabalhou. Para que o Thiago saiba que, além de um profissional muito competente, o pai dele era uma pessoa ética, boa e muito querida."

Sylvie Lopes Mello, nutricionista de 37 anos, irmã do procurador federal Carlos Eduardo Lopes Mello, que estava no voo com a mulher, Bianca Cotta, um dia depois do casamento. Eles iam para a lua de mel na Itália

''Para minha mãe, eles estão viajando''

"O Dudu e a Bianca iam passar a lua de mel em Fortaleza. Ela estava fazendo residência em Dermatologia, pós-graduação e curso de francês. Tinha muita coisa acumulada; eles só tinham uma semana. Em cima da hora, meu irmão mudou tudo e decidiu ir para a Itália.

Minha mãe lembrou que eles já tinham viajado para lá. "A gente foi como namorado. Agora o tratamento é outro", respondeu meu irmão.

No dia do casamento, eles estavam felizes demais. Eu e meu namorado, hoje meu marido, os deixamos já às 6 horas no hotel em que passariam a noite de núpcias. Na hora do almoço, mais ou menos, ele ligou para a família toda: os nossos pais, os pais dela, para a avó e a tia dela... Chamou todo mundo para almoçar no hotel.

Qual casal recém-casado convida a família toda para a lua de mel? Formamos uma mesa enorme. Acho que era uma despedida. Quando eles embarcaram, o pai da Bianca ainda conseguiu falar com eles.

Depois do acidente, ficamos todos reunidos na casa do pai da Bianca. Eu só bebia água. O Dudu era um ano e oito meses mais novo do que eu. Sempre fomos só nós dois. Depois da tragédia, eu me casei, mas não fiz festa nem tive lua de mel. Se tiver de viajar, eu vou de carro. Nunca mais entrei num A-330, essa máquina mortífera.

De repente, minha rotina é receber informe do BEA, comunicado da Air France, levar meus pais ao médico. Quando o psiquiatra perguntou como a minha mãe se sentiu na morte do meu irmão, ela saiu gritando do consultório. Para ela, eles estão viajando. É por isso que, se nos fosse dada a opção, não iríamos querer saber se encontraram os restos mortais deles no fundo do mar.

A nossa angústia é que eles são dois. Não aceitamos um sem o outro.

Eles dizem que vão nos entregar corpos de forma digna? O que é digno? Uma caixa lacrada? A nossa família tem a imagem da festa, deles felizes, com todos os amigos e as pessoas que eles amavam em volta deles. Já temos o atestado de morte presumida. A gente não vê necessidade dessa dor do resgate." / C.T.

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