Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

DEPOIMENTO: ‘Resolvi testar. A bike voa. É uma delícia’

Repórter do Estado faz teste drive em uma bicicleta elétrica e substitui carro no trajeto de casa para o jornal

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 09h04

Como repórter de ambiente, e entusiasta das bicicletas, sempre me senti meio frustrada por não conseguir usá-las como meio de transporte. Trabalhando na Marginal Tietê e morando num bairro onde qualquer caminho que eu faça significa enfrentar uma ladeira, sempre me bateu um misto de medo pelo trânsito e de incômodo com a ideia de chegar suada e desgrenhada ao trabalho.

Adoro pedalar, mas não sou biker profissional e acabo usando bicicleta só para lazer. Certamente tem gente que faz com muita facilidade trajetos que para mim são desafiadores – sempre assisto com admiração a um grupo noturno de ciclistas que se diverte nas ladeiras da minha rua como se estivesse numa montanha-russa.

Vendi meu carro há alguns anos com o firme plano de me deslocar mais a pé ou com transporte público. Não é lá muito coerente fazer tantas matérias sobre o impacto dos combustíveis fósseis para as mudanças climáticas e não tentar fazer um pouquinho a minha parte.

Só que, apesar de morar a apenas 5 km do jornal, levo de 50 minutos a uma hora para me locomover para cá, no início a pé e depois com dois ônibus. Um trajeto que, de carro, leva cerca de 15 minutos. Com isso, acabo me rendendo à facilidade dos aplicativos de carro mais do que eu gostaria de admitir.

Até que uma amiga, ciclista convicta, que vai todo dia para o trabalho pedalando e ainda carrega o filhote na garupa, contou que trocou sua bike tradicional por uma elétrica quando começou a penar para levar o menino já maiorzinho.

Eu tinha ouvido falar nas elétricas, mas, confesso, tinha batido um preconceito. Coisa meio coxinha, não é não? Afinal, pedalar é se exercitar. Como assim um motor vai fazer o trabalho? “Mas precisa pedalar para ativar o motor”, ela me disse. “É mais fácil, mas não é uma mobilete.” 

Resolvi testar. Usei por quatro dias uma elétrica de um fabricante nacional. 

De início, saí da loja com o motor desligado, para sentir a diferença, e peguei a ciclovia da Faria Lima. No meio do trajeto liguei o motor, a princípio em uma velocidade de 10 km/h e depois a 25 km/h. Uau. É como se alguém estivesse me empurrando. A bike voa. É uma delícia.

Mas era sábado, a ciclovia não estava muito cheia e a experiência estava fácil demais. Saí dela, subi a Gabriel Monteiro da Silva, atravessei a Brasil e entrei à esquerda na João Moura. 

Ali a ciclovia é estreita, o asfalto é bem ruim, todo ondulado ou esburacado, e a bike trepida demais. Mas me lembrei que a rua tem uma pirambeira de respeito ao passar sob o viaduto da Sumaré. Era a hora de fazer o grande teste. Respirei fundo, girei o botão para os 25 km/h e fui. 

É uma subida realmente íngreme. Me senti como em um carrinho 1.0 que vai na primeira marcha. Tem de pedalar com firmeza, dá para ouvir o motor sofrendo um pouquinho, mas a bike vai lindamente. Subi algo que até a pé é difícil. Imagine levando mais 18 quilos nas pernas. A magrela passou no primeiro teste que me importava.

Na terça-feira resolvi fazer o segundo teste, de trazê-la até o jornal. Fiz um caminho um pouco mais longo para aproveitar a ciclovia da Sumaré-Viaduto Antártica. Tudo muito bem. Até chegar à rotatória da Marquês de São Vicente e… ops, cadê a ciclovia? 

Ela acaba na avenida antes de chegar à ponte do Limão. A partir dali o caminho fica meio assustador, entre carros, caminhões e ônibus em alta velocidade. É preciso encarar as alças de acesso na raça. Atravessei a ponte pela calçada, fiz um caminho por dentro do bairro para não pegar a marginal, e cheguei sã e salva, mas um pouco suada, em exatos 27 minutos ao jornal. Bacana!

A bike é uma belezinha. Dá impulso para enfrentar as subidas, velocidade para sair de momentos mais tensos. Ela só não consegue resolver os problemas estruturais da cidade que são comuns a qualquer ciclista, seja de bike elétrica ou convencional. 

Falta ciclovia, o asfalto em muitas ruas é ruim demais e é difícil manter o controle, principalmente nas descidas. Fora que os motoristas ainda não são exatamente amistosos. Mas ela realmente ajuda a sair mais rapidamente dessas situações. Comecei a ver na bike elétrica uma alternativa real de mobilidade urbana mais sustentável.

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