'Demora para esquecer esse tipo de situação', diz policial em ação na cracolândia

Policial Militar participa da Operação Centro Legal desde o início

O Estado de S.Paulo,

16 de janeiro de 2012 | 23h17

Terça-feira (dia 10). O trabalho ficou mais difícil para a polícia porque o pessoal de organizações não governamentais (ONGs) e membros da Defensoria chegaram aqui. O pessoal começou a interferir nas abordagens. Foi o que ouvi dos outros colegas.

Quarta-feira (dia 11). Cheguei com o pelotão, no início da tarde, e, nas primeiras abordagens, já vi o pessoal da Defensoria Pública encostar. Antes mesmo da abordagem, já fomos alvo de perguntas e alguns comentários que pareciam tirar a nossa autoridade. Isso incomodou bastante.

Temos sentido que a população precisava dessa operação. Eles estão elogiando o nosso trabalho. Fatos isolados até deveriam ser questionados. Não tem como, em uma corporação de 100 mil homens, tudo dar certo. Não são todos que trabalham da forma correta. A gente fica chateado, mas não vamos desanimar.

Quinta-feira (dia 12). Estava de folga. Em casa, a minha mulher não perguntou nada nem as crianças. Procuro não comentar. Mas em uma loja em que vou fazer uma compra, no açougue, o pessoal faz perguntas. Faço algum comentário. Digo que estamos lá para acabar com a criminalidade, mas com o problema social e de saúde, não.

Há pessoas idosas, crianças usando droga. Em abordagens, já conheci poliglota, médico e advogado usando droga. Demora muito para esquecer esse tipo de situação. Garotas de programa de alto luxo, daquelas que cobravam R$ 500 por programa, agora fazendo uso do crack e debilitadas.

Sexta-feira (dia 13). Hoje, percebi que, em relação a quarta-feira, havia mais usuários. Eles tentam parar e se alojar nas calçadas. Mas, só de parar com a viatura perto, eles começaram a migrar. Não trataram mal. Nem precisava de atitude para que saíssem.

Durante uma abordagem, chegou um casal. Não sei se eram jornalistas, ou de grupos de defesa dos direitos humanos. Eles perguntaram por que o policial estava fazendo a revista em um dependente químico. Disse para aguardarem o término da abordagem, porque o policial poderia ter visto alguma coisa errada. No mínimo, viu um cachimbo, algo assim. Se não viu, não teria problema para o rapaz. Ela já tinha pensado que a abordagem era por causa da cor dele, mas o rapaz era moreno claro.

Durante a operação, muitos desses usuários de crack sumiram definitivamente daqui. Alguns a gente já conhece durante o serviço do dia. Voltaram para casa ou conseguiram uma internação. Mesmo com a operação, a pessoa está em uma situação tão drástica em relação ao vício que insiste em comprar e usar. Não é fácil para a gente tentar cortar isso. Quando chega no crack, é porque está em uma situação debilitada, com o lado psicológico muito abatido. É difícil, chato. Hoje, vi uma moça que sei que usa crack há pelo menos nove anos. Está acabada, é terrível. Esperamos que os outros órgãos se empenhem da mesma forma que estamos empenhados em ajudar essas pessoas.

À noite, está supertranquilo por aqui. As pessoas andando normalmente, com estabelecimentos funcionando, sem problema.

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