Demolições em áreas de risco começam hoje

Pessoas que vivem há décadas no bairro Alto da Floresta presenciaram mortes de vizinhos e[br]concordam com remoção

Bruno Boghossian, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2011 | 00h00

NOVA FRIBURGO

Os números pintados com tinta vermelha nas paredes indicam as 50 casas que serão demolidas a partir de hoje na comunidade Alto do Floresta, em Nova Friburgo. Na madrugada do dia 12, um deslizamento rasgou ao meio parte da favela, despejou escombros sobre um barranco e provocou mais de 30 mortes.

A tragédia abalou muitos moradores, que perceberam que viviam em uma área de risco, concordaram com a remoção e até ajudaram a Defesa Civil a identificar os donos dos imóveis. Os proprietários serão cadastrados, indenizados e terão direito a receber R$ 500 por mês para pagar o aluguel de novas residências.

O morador Otávio Pereira Filho, de 63 anos, acompanhou com serenidade o trabalho dos funcionários que documentavam as casas que ainda estavam de pé na comunidade. Recebeu uma notificação de um promotor, ouviu seus direitos de um defensor público, viu o número 18 ser pintado na parede de sua casa e posou para uma fotografia ao lado do imóvel.

"Eu fico com dó de ter de sair daqui, perder os amigos da vizinhança e a casa onde eu morei por mais de 40 anos, mas pelo menos vou viver em um lugar sem riscos ao lado da minha família. Isso é o mais importante", afirmou Otávio.

Ele diz compreender a necessidade das demolições. "Tem gente que reclama, mas eu sou favorável a essas demolições. Sei que é uma questão de segurança."

A casa de Otávio fica em um dos pontos mais altos da favela Alto do Floresta, sobre uma encosta íngreme a poucos minutos do centro comercial de Nova Friburgo. Apesar do risco de deslizamentos, as ruas da região são pavimentadas e as casas, feitas de alvenaria. Os cômodos são equipados com bons eletrodomésticos - refletindo um processo de favelização e urbanização comum em cidades brasileiras.

Rapidez. Para os governantes do município e do Estado do Rio, o desafio agora é retirar com rapidez os moradores de comunidades que já foram afetadas, ampliar a oferta de imóveis em locais seguros e evitar a construção de casas em outras áreas de risco. A demolição que começa hoje em Alto do Floresta é vista como uma oportunidade para acelerar e ampliar esse tipo de ação.

"Precisamos estudar as soluções para as áreas consideradas de risco na região serrana. Fazer uma obra de contenção de uma encosta para segurar cinco casas pode custar R$ 30 milhões. É melhor dar a esses moradores um apartamento em um local seguro e demolir os outros imóveis", avaliou o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, que montou um gabinete dentro da prefeitura de Nova Friburgo.

Segundo Pezão, 550 famílias já foram comunicadas da intenção de remover imóveis de áreas de risco do município e 485 aceitaram deixar os locais. O vice-governador lembrou que, no passado, já foi chamado de "nazista" por moradores que teriam suas casas demolidas em favelas do Rio, mas afirmou que o Estado poderá usar a força policial para garantir a retirada da população e evitar novas mortes.

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