Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Demolição de sobrados dos anos 30 mobiliza vizinhança na Vila Mariana, em SP

Tombamento da vila está em análise no Conpresp há 13 anos; área pertence a ordem religiosa, que não revela destino do terreno

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 23h08

SÃO PAULO - “Uma cidade sem história é uma cidade sem alma”. Em amarelo e vermelho, a frase foi escrita por moradores nos paralelepípedos da Rua Fabrício Vampré, na Vila Mariana, zona sul da cidade de São Paulo. Pouco afeita a movimentações, a via amanheceu nesta quinta-feira, 11, com um protesto de moradores. Eles questionavam a iminente demolição de uma antiga vila existente no local. O muro foi derrubado naquela tarde, assim como portas e janelas teriam sido retiradas no dia anterior.

Os sobrados são dos anos 1930 e têm estilo italiano, segundo a arquiteta Cíntia Padovan, de 58 anos, que morou em uma das casas por 29 anos. Em 2006, ela chegou a requerer o tombamento de todo o conjunto por intermédio do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).

“Ninguém mexeu nas características das casas. A vila é muito conservada, tem uma formação de praça. Ainda tem gancho de amarrar cavalo e uma curva que só carroça e carro pequeno para entrar”, explica Cíntia.

Se o pedido fosse aprovado, o imóvel ficaria protegido até a deliberação final do conselho. Mesmo 13 anos depois, contudo, o tombamento nunca foi votado e, portanto, uma eventual demolição é permitida. 

Em nota, a Secretaria Municipal de Cultural afirmou que o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) está finalizando o parecer técnico da vila, que será encaminhado ao Conpresp “nos próximos dias”.

Os sobrados foram esvaziados em 2017, a pedido dos proprietários. Os inquilinos afirmam ter se proposto a comprar, o que não foi acatado.

Hoje, a vila pertence à Ordem da Imaculada Conceição. Em nota, ela alega que os sobrados estão “livres e desimpedidos” e não forneceu detalhes sobre o que será erguido no terreno, que tem entrada pela Avenida Conselheiro Rodrigues Alves. “Em relação às demolições, esclarecemos que foram adotados os procedimentos legais e obtidas as devida autorizações para a execução dos serviços, agindo, portanto, dentro da legalidade e do exercício do direito sobre a propriedade.”

Moradores e vizinhos se reuniam e faziam eventos na vila

O entorno da vila também é alvo da atenção dos vizinhos, que criaram o coletivo Chácara das Jabuticabeiras. O grupo se organiza para preservar os paralelepípedos e a vegetação, além de defender a permanência da vila. “Moro aqui (no entorno) há dois anos e fiquei encantada com a vila. Ela tem uma história, um valor incrível. Nos sentimos um pouco desamparados”, declara a arquiteta Jurema Oliveira, de 55 anos. 

Todo o processo de esvaziamento dos sobrados é documentado pela cineasta Ana Petta, de 43 anos, que morou na vila por 14 anos, com os dois filhos. A saída culminou com uma ação em que os moradores escreveram declarações nas paredes das casas. “Só saí porque tiraram a gente. Foi um processo difícil. A vila era um grande quintal, com uma amoreira centenária. Todo ano, a gente colhia as frutas e fazia geleia para distribuir pelas casas.”

O resultado dará origem a um documentário. “Agora é uma questão de urgência que o processo seja olhado no Conpresp”, argumenta. 

A farmacêutica Cylene Pini, de 51 anos, mora em frente à vila desde que nasceu. Ela chorou com a possível demolição e diz estar arrasada. Ela relata que a vizinhança costumava fazer festas juninas e outros eventos no local. “A vila era aberta, a gente entrava para passear com o cachorro, fazia café da manhã lá para todo mundo.”

Novas homenagens também são feitas, como o poema do artista plástico Nelson Naccache, de 55 anos. “Hoje eu acordei e chorei, chorei profundamente por perceber que aquela vila ali é tudo que sou, tudo de vivo que vivi’, começa o texto.

Naccache foi vizinho da vila durante a infância e grande parte da vida adulta. Ele diz que o texto foi um “desabafo”. “Mais do que preservar o patrimônio físico, o que a gente quer preservar é essa forma de convívio, que está em extinção. De uma cooperação solidária. A vila é um símbolo de uma relação de compartilhamento.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.