Demolição atrai 'noias' no centro

Briga na Justiça barra derrubada de quarteirão na cracolândia e violência se espalha no entorno

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2010 | 00h00

A suspensão da demolição da antiga rodoviária, na região da Luz, determinada pela Justiça na semana passada, ocasionou um problema: o canteiro de obras passou a atrair viciados em crack. Com a saída das máquinas, eles reviram entulho em busca de metais para vender ou trocar por drogas. A situação já assusta moradores e comerciantes - duas invasões de imóveis ocorreram no fim de semana.

O canteiro fica no quarteirão entre a Avenida Duque de Caxias, a Praça Júlio Prestes e as Ruas Helvetia e Barão de Piracicaba, no coração da cracolândia. O governo estadual planeja construir ali o Complexo Cultural Luz - conjunto de três teatros que abrigará também a Companhia de Dança e a Escola de Música do Estado. A obra vai custar cerca de R$ 600 milhões e é uma das principais apostas da atual gestão para combater o crack na região.

O plano, no entanto, está paralisado desde que uma das empresas que perderam a licitação para demolir a antiga rodoviária conseguiu uma decisão judicial suspendendo as obras. A saída de máquinas e operários na sexta-feira e a ausência de barreiras físicas e de segurança ao redor da área já demolida facilitaram a invasão dos viciados.

O cenário é surreal - ontem à tarde, cerca de 30 pessoas reviravam entulho no quarteirão semidemolido e depois caminhavam com sacos lotados de canos, torneiras e estruturas metálicas. As peças de metal são compradas pelas lojas de sucata por R$ 0,20 o quilo. Havia também viciados levando carrinhos de mão com tijolos para lojas em reforma perto da Estação da Luz.

Roubos. O problema já extrapolou o limite das obras e atingiu imóveis no mesmo quarteirão. Na madrugada de sábado, o bar Estrela da Duque, localizado em uma das esquinas, foi invadido por um buraco aberto no banheiro feminino - o outro lado da parede fica virado para o terreno. "Roubaram cigarros, bebidas e dinheiro", disse Joaquim Soares de Matos, um dos sócios.

O mesmo problema tem o Edifício Lopes, do lado do bar. Na mesma noite, ladrões escalaram a parte de trás do muro - que dá para o canteiro de obras - e invadiram dois andares vazios. Levaram canos de cobre, torneiras, vasos sanitários e cabos elétricos e de telefone, segundo o zelador. Ontem à tarde, era possível ver viciados escalando as paredes e tentando entrar no prédio pelas janelas laterais.

Também no fim de semana, ladrões roubaram cabos de telefonia da região e uma casa lotérica na Rua Barão de Piracicaba não conseguiu acessar seu sistema ontem.

A Secretaria de Estado da Cultura, responsável pelas obras, afirmou que vai assumir a vigilância do local a partir de hoje. A Polícia Militar informou que o policiamento foi intensificado.

PARA ENTENDER

Assim como a antiga rodoviária, os prédios invadidos no fim de semana também serão demolidos para a construção do Complexo Cultural Luz - só não se sabe quando. Lojistas contestam na Justiça desde 2008 os valores oferecidos pelo governo para a desapropriação. Os donos do bar Estrela da Duque, por exemplo, pedem cerca de R$350 mil de indenização por quebra do contrato de aluguel. O caso está no Superior Tribunal de Justiça (STJ), sem previsão de julgamento.

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