Delegado reconhece que será difícil condenar policiais afastados

Desde maio, 56 policiais já foram afastados de suas funções suspeitos de integrar esquema de proteção ao jogo ilegal

Bruno Tavares, Estadão

15 de agosto de 2007 | 08h05

  O diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), Aldo Galiano Júnior, reconheceu, em depoimento à CPI dos caça-níqueis da Câmara Municipal que vai ser muito difícil condenar os 56 policiais afastados por suposto envolvimento em um esquema de proteção ao jogo ilegal em São Paulo. "Nesses casos, é preciso estabelecer um elo. Mas como nem o corruptor admite o pagamento de propina, acho muito difícil que haja condenação", disse.   "É claro que há corrupção, não podemos fechar os olhos", admitiu Galiano. "Sem isso, não haveria como uma atividade ilegal funcionar por 15 anos." Na terça-feira, 14, a Polícia Civil de São Paulo afastou mais 43 policiais suspeitos de envolvimento no suposto esquema de pagamento de propina da máfia dos caça-níqueis a delegacias da capital. Desde o dia 25 de maio, quando policiais militares apreenderam envelopes com dinheiro endereçados a distritos policiais no carro do advogado Jamil Chokr, 56 funcionários da polícia paulista já foram afastados preventivamente de suas funções.     O diretor do Decap afirmou ainda que, dos 43 funcionários afastados recentemente, 26 ocupavam cargos em DPs da capital - a maioria trabalhava como investigador ou escrivão. Os outros 17 eram funcionários de quatro departamentos: Denarc (Narcóticos), Deic (Crime Organizado), Demacro (Polícia Judiciária da Macro São Paulo) e Dird (Identificação e Registros Diversos). Segundo o delegado, todos eles permanecerão em funções administrativas até o fim das investigações.   O primeiro afastamento de policiais determinado pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) ocorreu em 16 de julho, após a descoberta de um suposto mapa da propina paga a policiais civis de São Paulo. Na ocasião, 13 investigadores-chefes cujos nomes constavam das agendas telefônicas de Chokr tiveram de deixar seus postos. O único afastamento voluntário foi o do investigador-chefe Afonso Henrique Soares Rodrigues, do Deic. Em carta entregue à direção do departamento, o policial admitiu ser amigo do advogado há muito tempo.   O escândalo que pôs sob suspeita 84 das 93 delegacias da capital eclodiu em 25 de maio, quando Chokr se envolveu em um acidente de trânsito na Marginal do Tietê ao tentar escapar de uma suposta tentativa de assalto. No porta-malas de seu Vectra blindado, PMs encontraram cerca de R$ 30 mil em dinheiro, dezenas de envelopes com números de DPs da capital, agendas telefônicas e uma planilha com valores atribuídos a delegacias e departamentos policiais.   Em depoimento à corregedoria, o advogado que defendia a empresa Reel Token, fabricante de máquinas de caça-níqueis, negou o pagamento de propina a policiais. À época, Chokr alegou que os valores e documentos encontrados eram relativos a honorários.   Na terça-feira, a CPI da Câmara Municipal ouviu um dos proprietários da Reel Token, Luís Marcelo Pereira. O depoimento dele foi marcado por diversas contradições e chegou a ser classificado de "mentiroso" pelo relator da comissão, vereador Adílson Amadeu (PTB). "Ficou evidente que esse rapaz é apenas um 'laranja' dessa máfia", acusou o vereador. A CPI vai agendar para a próxima semana uma acareação entre Chokr e representantes da Reel Token.   5 mil caça-níqueis   A Polícia Civil apreendeu 5 mil caça-níqueis na Operação Inverno Quente, realizada na terça-feira, 14, por 800 homens do Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic). A apreensão das máquinas foi uma das ações do Deic. Ao todo, foram presos 13 homens. Outros dois foram mortos em troca de tiros com policiais da Divisão Anti-Seqüestro (DAS), quando os investigadores resgatavam em Arujá o empresário Anderson Lisboa, de 40 anos, seqüestrado desde o dia 23.Dois dos presos, Luiz Sérgio Varoto, de 51 anos, e Ivalmir Sílvio Cobianchi Nigro, de 42 anos, são acusados de alugar 171 celulares a bandidos. Cobravam R$ 1,5 mil pela liberação da linha e R$ 200 mensais, com a promessa de que os aparelhos não seriam grampeados. Em julho faturaram R$ 33 mil.Os caça-níqueis foram apreendidos pelos homens do 2.º Divecar, após bloqueio na Rodovia Castelo Branco. O motorista, que carregava 30 máquinas, levou os policiais ao galpão de uma empresa de logística, em Vargem Grande Paulista. Os equipamentos, bloqueados pela Justiça, eram embalados em caixas de geladeiras e contrabandeados para a Espanha, México e países da América do Sul. O advogado Waldomiro Carlos Donha, de 60 anos, foi preso em flagrante.   (Colaboraram Humberto Maia Junior e Rodrigo Pereira, do Estadão)

Tudo o que sabemos sobre:
jogo ilegalcaça-níqueisChokr

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.