Delegado do Deic vê 'ligações estreitas' entre PCC e CV

União ainda não aconteceu porque quadrilha paulista possui 'discurso ideológico' e a carioca, 'visão empresarial'

Pedro Dantas, do Estadão,

14 de novembro de 2007 | 19h10

O delegado-titular da Delegacia de Roubo a Bancos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), Ruy Ferraz Fontes, reconheceu nesta quarta-feira, 14, que os comandos do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho possuem "ligações pessoais estreitas". De acordo com Fontes, a "união institucional" não ocorreu ainda porque a organização criminosa paulista possui um "discurso ideológico" e a quadrilha carioca tem uma "visão empresarial" do crime. Ele acredita que a divisão de lucros seria um entrave entre as facções. "Caso eles perceberem que a união pode ser lucrativa para ambos os lados, se integrariam rapidamente", declarou Fontes. A diferença entre as duas quadrilhas ficam claras nas investigações, de acordo com o policial."Para se ter uma idéia, as escutas telefônicas do celular dividido entre Cesinha (então líder do PCC) e Chapolim (braço-direito de Beira-Mar no Rio), em 2002, no Presídio de Bangu 1, mostram Cesinha preocupado em organizar represálias contra diretores de presídios que puniram detentos, enquanto Chapolim perguntava aos comparsas sobre gastos com drogas, assistencialismo e propinas a policiais", afirmou o delegado. Outra conversa por telefone, com sete horas de duração, entre um tesoureiro do PCC e a namorada carioca, ligada ao CV, revelou à polícia todo o esquema financeiro da quadrilha paulista, de acordo com Fontes. O delegado disse que o fato de os presos do Rio cumprirem pena em outros estados facilita a troca de informações entre as quadrilhas. "O ideal seria que os condenados no Rio cumprissem as penas em seus estados", apontou Fontes. As afirmações do delegado foram durante a palestra dele no 10º Seminário sobre Criminalidade e o Sistema Penal Brasileiro, na sede do BNDES, no Centro do Rio. "As relações entre as quadrilhas ainda são pessoais. Em 1999, por exemplo, o Deic prendeu um dos irmãos do Marcola na casa de uma tia do Beira-Mar em uma favela do Rio. No entanto, dentro do cárcere eles já se respeitam se ficam presos juntos ", ressaltou o delegado. A permissividade das autoridades do sistema penitenciário foi uma das causas apontadas pelo diretor do Deic para o fortalecimento das organizações criminosas nos dois estados. "Em São Paulo, Marcola tinha status de secretário de Estado. Escolhia tanto a cor dos uniformes dos presos, como determinou a compra de 60 aparelhos de TV pela Secretaria de Administração Penitenciária para que os internos assistissem a Copa do Mundo", criticou Fontes. Segundo ele, as autoridades não fazem isto por dinheiro, mas "para manter a tranqüilidade dentro do sistema". "Onde isso vai parar? O agente penitenciário deve ter consciência que sua tarefa é zelar pela execução da pena. Porém, muitas vezes eles têm acesso a informações e não passam para a polícia", lamentou Fontes.

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