Delegado da PF pagará R$ 500 mil por desviar R$ 500

Multa cobrada pela Justiça pune uso de notas frias para justificar gasto em posto de gasolina no interior de SP; acusado nega

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2012 | 03h07

O ex-delegado da Polícia Federal (PF) Washington da Cunha Menezes, acusado de desviar R$ 500, terá de pagar uma multa de aproximadamente R$ 500 mil. O Ministério Público Federal (MPF) afirma que ele exigiu o dinheiro do dono de um posto de gasolina de Marília e ainda que o estabelecimento emitisse notas fiscais falsas nesse valor para justificar o gasto na PF.

O policial, que já foi preso por outros crimes, não pode mais recorrer da sentença, de acordo com o MPF. Como resultado de uma ação civil pública, a Justiça Federal ordenou a execução da pena e o policial terá 15 dias para depositar o dinheiro assim que for notificado. Menezes, que ainda terá de ressarcir os R$ 500, perdeu os direitos políticos por oito anos, não poderá votar nestas eleições e está proibido de fazer contratações em nome do poder público por 10 anos.

O desvio foi descoberto em 2007, segundo o procurador Célio Vieira da Silva, que atua em Marília (a 435 quilômetros de São Paulo). A PF tinha um fundo para ser gasto no posto. Segundo a acusação, Menezes se apropriou de R$ 500 dessa cota.

"O delegado chamou o gerente do posto e disse que queria R$ 500. Imagine o gerente do posto, diante de um delegado que chefiava uma delegacia responsável por 60 municípios. O homem deu o dinheiro e emitiu cinco notas fiscais no mesmo valor, mas não colocou nem a placa nem a quilometragem dos veículos", disse o procurador. Segundo ele, o delegado que assumiu o cargo após Menezes ser afastado acabou descobrindo o desfalque.

O procurador afirmou que a multa foi calculada levando em conta a gravidade do crime, e não o valor desviado. "No Brasil, virou moda dizer que roubar R$ 500 é insignificante. O cara que rouba R$ 500 daqui a pouco rouba R$ 500 mil, R$ 500 milhões", afirmou o procurador.

Operação Oeste. O delegado também é acusado de formação de quadrilha, peculato, falsidade ideológica e corrupção. Menezes acumula cinco processos criminais e três civis.

As ações são resultado da Operação Oeste, realizada em abril de 2007 pela PF para desarticular uma quadrilha composta por policiais federais, delegados da Polícia Civil, advogados e criminosos da região oeste do Estado de São Paulo.

Durante a operação, 43 pessoas foram presas. Entre os crimes atribuídos aos suspeitos estão sequestros de fazendeiros atraídos por falsas ofertas de equipamentos agrícolas.

O procurador Célio Vieira da Silva afirmou que, em outros casos, Menezes "sumiu" com as joias de um comerciante, avaliadas em US$ 600 mil, e extorquiu dinheiro de um empresário para pagar as diárias de hospedagem da amante dele em um hotel. Em fevereiro de 2008, ele foi condenado a quatro anos e oito meses de prisão por concussão (usar o cargo para obter vantagens).

O ex-delegado cumpre condicional. Menezes nega os crimes, as condenações e afirma estar sendo perseguido pelo MPF.

"Mentira. Não fui condenado em caso nenhum. O procurador tem raiva de mim. Fui absolvido em quatro processos", afirmou ele.

Menezes também garantiu ser inocente no caso dos R$ 500. "Esse dinheiro foi retirado para comprar material para a delegacia. Isso está sendo provado no bojo do processo-crime", alegou. Ele afirma que ainda não foi comunicado da decisão judicial.

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