Delegacia vira ponto final de coletivos e passageiros sofrem na volta pra casa

Depois de dez ônibus serem incendiados desde sábado, pelo menos sete linhas deixaram ontem de circular nas zonas sul, leste e central

BRUNO PAES MANSO, BRUNO RIBEIRO, WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2012 | 03h05

Após dez ataques a ônibus em menos de uma semana, pelo menos sete linhas deixaram de circular ontem, depois das 20h, nas regiões sul, leste e central. Houve filas nos pontos e alguns passageiros tiveram de seguir a pé. A tensão também causou toque de recolher na periferia - no Parque Bristol, zona sul, moradores e comerciantes acusaram PMs de decretar toque de recolher e ônibus alteraram o itinerário, para colocar o ponto final perto de uma delegacia.

Já no fim da tarde, a empresa Via Sul anunciou que retiraria de circulação sete linhas de ônibus para evitar atentados. Por volta das 20h, os coletivos, ainda com passageiros, já seguiam direto para a garagem, perto do Zoo Safári. "Estou muito preocupada com essa situação. Vim do Brás, onde trabalho, e agora vou ter de andar 40 minutos até chegar em casa", reclamou a vendedora Vanda Núbia, de 36 anos. Com medo, vários pessoas seguiam em grupos. Às 20h30, a São Paulo Transporte (SPTrans), que controla o sistema, informou que estava em contato com a Via Sul para que a empresa retomasse as operações "o mais rápido possível".

Durante o dia, pelo menos três linhas transferiram o ponto final para o 83.º DP (Parque Bristol). Por volta das 18h30, um ônibus da linha Jardim Maristela-Santa Cruz foi atacado com três coquetéis molotov (um não acendeu), na Rua Professor Silas Matos.

Terminais. Desfalcado pelas linhas da Via Sul, o Terminal Sacomã estava com movimento muito abaixo do normal às 22h. Apenas lotações e linhas intermunicipais operavam. A reclamação era grande entre os passageiros, mas não houve tumulto. Já no Terminal Parque Dom Pedro II, na região central, havia filas e alguma confusão.

E os problemas não se resumiram à zona sul. De madrugada, usuários de ônibus da Viação Sambaíba bloquearam a Avenida Cruzeiro do Sul, ao lado do Terminal de Santana, na zona norte da capital, para reclamar da falta de condução. A Sambaíba recolheu veículos na noite de anteontem após o registro de três atentados no Tremembé em menos de duas horas.

Portas fechadas. Não foram registrados ataques a PMs nas últimas horas. Em duas semanas, seis policiais morreram e bases foram atacadas por bandidos. Ontem, Charles Donato Mendes, de 36 anos, o Tartaruga, foi preso por envolvimento na morte de policiais militares. Mas a Secretaria de Segurança Pública não detalhou os casos suspeitos.

Desde terça-feira, 31 pelotões da Força Tática estão indo para as ruas em ações que se concentram entre 18 horas e 1h, para conter a criminalidade. As operações priorizam lugares com maior incidência de homicídios. Na noite de ontem, uma grande blitz foi feita na Avenida do Estado, dificultando o trânsito.

Mas foi justamente uma dessas operações da Força Tática que, segundo os moradores do Parque Bristol, teria determinado um toque de recolher desde anteontem. Segundo comerciantes da Rua Manuel de Aires, PMs da Força Tática determinaram o fechamento das portas às 19h30 da terça-feira. Na intenção de obrigar as pessoas a sair das ruas, PMs teriam até atirado bombas de efeito moral. "Puxaram minha mulher pelo braço e a jogaram na parede. Um deles gritava 'Eu mandei vocês saírem da rua'. Acho que não precisava de nada disso", afirmou um cobrador de 27 anos.

Às 23h35, um ônibus foi incendiado na região. Mas, segundo os próprios moradores, foi uma resposta de pessoas insatisfeitas com a ação policial de horas antes. Segundo o titular do 83.º DP, Enjolras Rello Araujo, não há motivo para apreensão. "Estou desde as 6h em serviço e garantimos a segurança da população."

Já o coronel Leonardo Ribeiro, do Comando de Policiamento da Capital, negou que agentes tenham agido de forma violenta. "As operações têm o objetivo de garantir a presença das pessoas na rua, não de determinar toque de recolher". Segundo o coronel, também não foram lançadas bombas de efeito moral. "Não houve nenhum tipo de registro."

A insegurança em relação a novos ataques na capital já tem reflexos em outras cidades. Ontem, por exemplo, um dos acessos à Rua Heloísa Pamplona estava fechado perto de uma base policial. Já em Sorocaba blitze da lei seca deixaram de ser feitas de madrugada porque os policiais tiveram de ser deslocados. / COLABORARAM GIO MENDES e JOSÉ MARIA TOMAZELA

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