TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Delegacia seccional em Guarulhos é desalojada de sede

Outro DP da cidade tem ordem de despejo e agentes falam em ‘sucateamento’; pasta usa termo ‘transferência’

Alexandre Hisayasu, O Estado de S. Paulo

03 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Os policiais da delegacia seccional de Guarulhos, na Grande São Paulo, tiveram de deixar o prédio após um pedido da prefeitura da cidade, que pagava o aluguel do imóvel. A nova gestão diz que usará o prédio para outra finalidade. Dos distritos policiais do município, apenas o 1.º DP tem sede própria; os demais são alugados. O 3.º DP, que também é alugado, tem um ordem de despejo, mas tenta negociar um novo valor para o imóvel.

Na tarde desta quinta-feira, 2, o Estado flagrou os policiais ajudando os carregadores a tirar os móveis e inquéritos da delegacia. Havia muitas cadeiras, sofás, mesas, computadores e outros pertences na calçada da Rua Conceição, na Vila Zanardi. Segundo a polícia, o aluguel do prédio é pago pela prefeitura, que pretende usá-lo para outros fins. Para a delegada Raquel Kobashi Galinatti, presidente do Sindicato dos Delegados do Estado de São Paulo (Sindesp), a situação mostra o “desmonte da Polícia Civil”. “O que estamos constatando é que os policiais, na sua imensa maioria, estão sem condições de trabalho.”

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública diz que “nenhuma unidade foi despejada”. Segundo a pasta, a Delegacia seccional de Guarulhos e as especializadas estão sendo transferidas para um novo imóvel locado pelo Estado. 

Nesta quinta, a reportagem revelou que 256 municípios do Estado não têm delegado titular e que há uma sobrecarga de trabalho por causa do déficit de funcionários. Na capital, a média é de 100 inquéritos policiais para cada investigador.

A falta de efetivo atinge todos os departamentos da Polícia Civil. Na Grande São Paulo, várias delegacias funcionam apenas em horário comercial e fecham nos finais de semana.

No Grande ABC, na seccional de Santo André, apenas três das seis delegacias funcionam 24 horas. Em Mauá, só a delegacia sede. Em São Bernardo do Campo, três dos seis DPs funcionam 24 horas e apenas uma delegacia, de três, em São Caetano do Sul. Em Osasco, dos 10 DPs, só dois estão abertos 24 horas.

Repasse. O Sindesp reclama que, além de permitir que os policiais civis trabalhem com baixo efetivo e sem condições materiais, o governo estadual transferiu cerca de R$ 150 milhões das Polícias Civil e Técnico Científica para a Polícia Militar. A decisão foi publicada, no Diário Oficial, em dezembro.

“Havia R$ 104 milhões para gastos com a Polícia Civil, mas a administração transferiu esse valor para a PM. Mandamos ofício à Secretaria de Segurança Pública, mas não tivemos resposta até agora”, disse Raquel.

Para a desembargadora Ivana David, a Polícia Civil é quem tem a obrigação legal de investigar crimes, mas isso fica prejudicado com a falta de estrutura. “A ausência de ação penal gera impunidade. O Judiciário fica de mãos atadas se não há investigação da polícia.”

O professor Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública, o sucateamento da Polícia Civil vem ocorrendo nos últimos 15 anos. “As grandes quadrilhas, os chamados bandidos profissionais, só serão desbaratados com investigação.”

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que os recursos foram repassados para a PM, mas “que trata-se de medida de rotina para que o Estado honre a folha de pagamento dos servidores, que é estimada no ano anterior e pode ou não se cumprir ao longo do exercício”. 

Sobre as delegacias da Grande São Paulo, a pasta diz que as unidades foram distribuídas segundo a quantidade de habitantes. 

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