Dekasseguis brilham como modelos

Aumenta número de brasileiros que vão trabalhar em fábricas no Japão, mas acabam fazendo sucesso nas passarelas. Miscigenação é ponto positivo

Edson Xavier,

03 de outubro de 2010 | 00h11

Jovens brasileiras filhas de migrantes fazem sucesso e alcançam fama e dinheiro no Japão em uma das profissões mais concorridas do país: a de modelo. As principais revistas de moda estampam suas fotos. Elas também estão nas passarelas, em comerciais de tevê no horário nobre e em outdoors e cartazes de vagões do metrô.

As netas de japoneses mais requisitadas nos trabalhos de modelo têm pele e cabelos claros, são magras, altas, olhos grandes, pernas longas e esguias, mas ficam longe do estilo "mulherão" sexy. E a chave do sucesso para mestiças em terras nipônicas: apesar da miscigenação, elas mantêm os traços orientais.

Mas não é uma rotina fácil. "Acordo às 5 horas, faço caminhada rápida com meu cão e sigo para o trabalho, onde diariamente tenho muito serviço", revela a neta de japoneses Karina Caetano Fujita. Aos 30 anos, ela está entre as modelos brasileiras mais bem pagas de Tóquio. Há 10, trocou o anonimato de operária em uma fábrica de peças de avião em Gifu pelo estrelato nas principais publicações de moda do país. E adotou o nome artístico Rina Fujita.

Natural de Uberlândia, Minas, Rina não revela quanto fatura de cachê pelas fotos e campanhas publicitárias. Agentes da área estimam, porém, que o salário de uma modelo no patamar de Rina fica em torno de US$ 50 mil por mês - cerca de R$ 85 mil. Em 30 dias, ela ganha mais do que a renda anual de um operário qualificado no Japão. E Rina Fujita já atua no mercado há uma década com frequência diária de trabalhos. "Meu salário é suficiente para levar uma vida tranquila no Japão e ajudar meus pais no Brasil", desconversa a moça.

Quando ainda dava os primeiros passos na profissão de modelo, Rina já faturava o suficiente para mandar de volta a Minas os pais dekasseguis no Japão. Hoje, além das campanhas publicitárias em revistas semanais como Miss, Classy, Baila e Life, entre outras, ela trabalha em design de moda, de uma grife própria, e lançou o livro Rina"s Recipe Of Life, no qual dá dicas sobre seu modo de vida a uma legião de fãs de várias idades.

Rina Fujita foi uma das primeiras descobertas de uma agência que abriu as portas no Japão para as modelos "half" (metade), em alusão às brasileiras de ascendência nipônica. "Meu início de carreira foi inesperado, em 1999. Incentivada por amigos, participei e venci um concurso de beleza na Província de Aichi. Depois fechei contrato com uma agência de modelos e não parei mais de trabalhar." Rina enumera uma lista de dificuldades na profissão, a começar pela concorrência acirrada, e aconselha novatas a dominarem o idioma japonês e não se iludirem apenas com o glamour da vida de modelo.

Revelação. Priscila Matsumoto, de 19 anos, nasceu em Maringá, no Paraná, e está no Japão com os pais há sete. Deu os primeiros passos como modelo no Miss Nikkey, festival de beleza e integração da comunidade migrante, também em Aichi. Foi chamada pela Elite Models e começou a fazer pequenos trabalhos no circuito Tóquio, Nagoya, Kyoto e Osaka, até surgir oportunidade de campanha em Taiwan, há dois anos. Deixou a família no Japão e experimentou o sucesso na profissão - não depende mais de mesada dos pais, tem carreira estável e no ano que vem pretende matricular-se em uma universidade para estudar a língua chinesa.

Priscila garante que a Ásia é um excelente mercado para modelos mestiças, mas é preciso dedicação. Ela revela que já perdeu trabalhos por não dominar o mandarim e agora estuda a língua para disputar vagas em filmes, novelas e comerciais.

Incentivo não lhe falta dos pais, Mônica e Lúcio Matsumoto, e de um amigo bastante próximo e influente, Chan Cho Ming, de 17 anos, com quem Priscila circula por Taiwan. O rapaz é filho do ator Jackie Chan e a imprensa do país chegou a especular a existência de um romance entre o jovem de pai famoso e a modelo brasileira.

Sorte. Susy Kimie Shimada, de 30 anos, é modelo em Tóquio desde 2002 e acredita que o sucesso na profissão depende também de uma boa dose de sorte. "Felizmente tenho clientes regulares e isso ajuda muito a consolidar a carreira."

Segundo ela, a profissão já foi melhor no aspecto financeiro. Com a crise, diminuíram os castings (testes) e o salário teve redução, diz a migrante que trocou Suzano, na Grande São Paulo, pelo Japão. Ela já trabalhou em fábrica de autopeças em Aichi e Susy e não tem dúvida de que, apesar de o salário hoje ser menor como modelo, ainda ganha mais do que receberia em uma fábrica.

Susy complementa a renda mensal com serviço de modelo em uma loja de grife americana no bairro de Ginza - polo de moda e luxo no centro de Tóquio, no qual se concentram butiques da principais grifes mundiais.

Esperança. Seguir os passos de modelos como Rina, Priscila ou Susy é o sonho da adolescente Vanessa Capellari, de 14 anos, aluna do ensino fundamental em uma escola japonesa. A mãe Irene Kuroichi e o pai Dorival Capellari incentivam a menina, mas salientam que primeiro a filha deve concluir os estudos.

A família Capellari é de Guarulhos e está no Japão há 9 anos. Vanessa cresceu folheando revistas japonesas de moda e acompanhando o sucesso das mestiças brasileiras.

O sonho levou a adolescente a vencer em abril o principal evento de beleza brasileira em território japonês. Com título de Miss Nikkey 2010, ela aguarda um contrato com uma agência de modelos em Tóquio e ganha experiência em trabalhos de publicidade voltados ao mercado brasileiro. "Meus pais não têm previsão de retorno ao Brasil, por isso quero me preparar bem para a profissão com a qual sonho."

O sonho é compartilhado por um grande número de jovens brasileiras residentes no Japão. Mesmo as que não têm o perfil exigido pelas agências acreditam em uma remota chance de emplacar trabalho.

Produtora do festival do Miss Nikkey, a ex-modelo Daniela Nishikawa, de 37 anos, orienta as adolescentes sobre o mercado. "A realidade, de conseguir uma vaga e um bom contrato, é bastante difícil porque é uma área concorrida, mas creio que os que pretendem seguir a carreira de modelo devem esforçar-se, estar preparados e ter disciplina."

Uma vez ao ano o evento revela novos talentos da comunidade migrante e facilita que jovens filhas de dekasseguis deem os primeiros passos como modelo.

Em outubro ela vai realizar o Miss Nikkey na cidade de Tupã, no interior de São Paulo, para selecionar interessadas em trabalhos no Japão.

Mercado. Estima-se que atuem hoje em Tóquio, em trabalhos de destaque, cerca de 30 modelos brasileiras filhas de migrantes, além das que vão diretamente do Brasil. Regina Kawashima, de 38 anos, sócia da agência Demi, revela que o mercado enxugou com a crise e o cachê foi reduzido para menos da metade. Mas a profissão ainda compensa.

Segundo ela, as modelos mestiças recebem cerca de R$ 170 por hora em uma sessão fotográfica para revistas de moda. E o salário mensal em campanhas publicitárias pode chegar a R$ 10 mil para uma modelo em início de carreira. A agência Demi trabalha com modelos a partir dos 13 anos de idade, em fase de orientação e preparação. Com 15 anos, surgem efetivamente os trabalhos, que se estendem até a faixa etária dos 30.

"Predomina no Japão a oferta de trabalho para modelos femininas, brasileiras que fazem o estilo de uma japonesa diferenciada. Nas campanhas publicitárias que exigem rapazes, os clientes geralmente preferem contratar talentos já conhecidos do público, como cantores ou atores locais", observa Regina.

Raquel Felipe, de 37 anos, atuou como modelo no Japão até seis anos atrás, quando trocou de posição ao criar uma agência de caça-talentos e gerenciamento de new faces brasileiras. Garante que uma boa preparação é condição essencial a quem almeja a carreira. "Se a modelo tiver estrutura psicológica e profissional, consegue trabalhar em qualquer país e fazer sucesso", afirma.

Em seus dias de modelo, Raquel amealhou cachês razoáveis. O maior de que se recorda foi de US$ 20 mil, por três horas de gravação de um comercial levado ao ar em vários países da Ásia algum tempo atrás.

Opção masculina. Justamente em busca de cachês razoáveis e de alcançar o reconhecimento do público, muitos rapazes brasileiros que migraram para o Japão também almejam a carreira, apesar das restrições em castings masculinos.

Aos 35 anos, Eduardo Massanobu Takada prova o glamour da profissão em trabalhos esporádicos em Aichi. Tem feito desfiles e fotos para revistas, sem pretensões de dar largos passos. "É bastante concorrido para rapazes. Por isso, tenho me dedicado mais a apresentar novos talentos às agências", revela o rapaz, que pensa em criar a própria empresa de caça-talentos.

Douglas Aniceto, de 20 anos, é outro que vive a empolgação dos primeiros testes e ensaios como modelo. Natural de Cáceres, em Mato Grosso, ele chama a atenção pela altura na fábrica de autopeças em que trabalha: 1,77 metro. Há um ano, vê portas se abrirem rumo ao sonho de se tornar modelo e torce para que os castings fiquem mais frequentes. "É a chance que espero para deixar de vez o serviço na fábrica e me dedicar exclusivamente à profissão."

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