Deixou o carro no valet? Cuidado, ele pode estar na rua

Decreto liberou vagas para que manobristas não parassem em vias públicas, mas 'Estado' constatou que a prática continua comum

Renato Machado e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2010 | 00h00

 

 

As regras para o funcionamento dos valets já haviam sido abrandadas em São Paulo há pouco mais de um ano. Mas nem isso fez as empresas passarem a respeitar seus limites. Pelo contrário. Muitos clientes ainda têm seus carros parados nas ruas - embora acreditem que estejam em estacionamentos. Além disso, o restante da população sofre com "truques" que praticamente extinguem as vagas nas ruas paulistanas.

O decreto do prefeito Gilberto Kassab (DEM), em abril do ano passado, autorizou valets a estacionar veículos dos clientes em postos de gasolina e terrenos vazios, entre outros locais. Foi um abrandamento da regra e ampliação das opções para esses estabelecimentos, que cobram entre R$ 10 e R$ 45 dos clientes. Parar na rua continua proibido.

Mas não é o que se vê nas vias públicas de São Paulo. "É a noite inteira com barulho de alarme de carro, escapamento aberto e gente cantando pneu", diz o professor Domingos Marchetti, de 55 anos. Ele vive com a mulher em rua estritamente residencial da Vila Madalena, zona oeste - a 400 metros dos bares. Apesar de o barulho dos estabelecimentos não chegar a eles, os valets transformaram a região em um estacionamento ao ar livre.

Os principais pontos usados pelos valets são a Rua Zapara e a Praça Lineu Prestes, onde dezenas de carros ficam parados. Durante toda a noite, há manobristas correndo de um lado para outro para levar e buscar automóveis. Para não deixar o cliente esperando, abusam da velocidade e realizam manobras bruscas.

Para comprovar que eram de clientes dos bares, a reportagem do Estado seguiu alguns veículos na quarta-feira, desde o momento em que manobristas entraram neles até serem entregues aos donos, como aconteceu com um Vectra G3. "Na rua? Disseram que ficava num estacionamento, com porteiro e segurança", surpreendeu-se a administradora Ana Paula Kuba, de 32 anos, ao saber do verdadeiro local onde seu carro havia sido estacionado pela OMB Park, que cobrou R$ 15 pelo serviço. "Vou reclamar com a direção do bar."

Na Rua Amauri, reduto gastronômico da zona sul, as vagas existentes nos 180 metros da via são tomadas quase exclusivamente por carros de clientes no horário de almoço. Entre as 12 e as 15 horas, é constante o movimento de manobristas nas calçadas, levando e buscando carros nas vagas de Zona Azul.

Em três horas no local, o Estado flagrou manobristas deixarem 11 carros nessas vagas - nesses casos, os responsáveis foram a empresa de valets Estasampa (quatro carros em Zona Azul) e o serviço de manobristas do restaurante Forneria San Paolo (sete carros). A taxa de estacionamento (R$ 15) é incluída na conta, mesmo que os clientes desconheçam que o carro ficou na rua. "Eles dizem parar no estacionamento de um flat", disse o empresário Flávio (não disse o sobrenome), antes de entrar em seu Mini Cooper vermelho - na rua entre as 14 horas e as 15h15. "Vou perguntar o que está acontecendo."

Na Praça Vilaboim, em Higienópolis, na região central, valets também utilizam vias próximas para estacionar. Às 21h30 de quarta-feira, a reportagem flagrou manobristas da empresa Estrela Park levando dois veículos até a Rua Piauí.

Entre 2009 e 2010, segundo a Prefeitura, foram aplicadas 160 notificações na Praça Vilaboim, Rua Amauri e Vila Madalena.

Surpresa. O dono da OMB, Marcelo Aparecido, disse ter sido pego de surpresa com as denúncias e vai tomar providências. "Já troquei minha gerência no local. Atendemos apenas a um bar na Vila Madalena para não comprometer a operação e temos convênio com estacionamento. Fiquei surpreso", disse. Já Oziel Barbosa, proprietário do Estrela Park, afirmou que carros ficam na rua "só quando não há vaga no estacionamento, o que é raro".

No caso da Forneria San Paolo, segundo a Assessoria de Imprensa, "em diversas reuniões com órgãos de fiscalização, nunca houve reclamação". Caso haja, segundo a assessoria, a prática será abandonada. Segundo o supervisor da empresa Estasampa, Alexandre Lopes, carros são estacionados na via somente se o cliente estiver "inseguro" para deixá-lo no estacionamento. "Não é prática comum."

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