Secretaria de Turismo de Itapura
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Degradação ameaça memória da Guerra do Paraguai

Imóveis que serviram de apoio a tropas brasileiras em conflito no Paraguai, no século 19, correm o risco de desabar por falta de conservação

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

11 Março 2018 | 03h00

SOROCABA - Prédios e construções que serviram de apoio às tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, que terminou há 148 anos, correm o risco de desabar por falta de conservação, no interior paulista. O prédio que abrigou o comando de tropas nacionais durante o enfrentamento ao ditador paraguaio Solano Lopez, está em ruínas, em Itapura, extremo oeste paulista. Em Iperó, região de Sorocaba, instalações da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, que produziu armas e munição para as tropas em combate no cone sul, estão escoradas para não ruírem. 

Conhecido como Palácio do Imperador, por ter sido construído a mando de dom Pedro II, o prédio de dois pavimentos, em Itapura, em nada lembra o passado de glórias, como a festa que celebrou a vitória na guerra. O imóvel tombado pelo patrimônio histórico estadual está em ruínas: tem portas e janelas arrancadas, madeira do forro e estrutura do teto apodrecidas e as paredes pichadas. O palácio foi erguido em 1858 após o avanço das tropas de Solano pelo atual Mato Grosso do Sul.

Preocupado em fortalecer a defesa do País, o imperador criou uma colônia na região, instalando no prédio, estrategicamente entre os Rios Tietê e Paraná, o comando da base naval. Na época, o sobrado ficou conhecido como Forte de Itapura. Nele, eram planejadas táticas de combate. Alguns historiadores dizem que dom Pedro II se hospedou no local quando inspecionava as tropas brasileiras.

Em 1969, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico (Condephaat) tombou o prédio e seu entorno, com base em relatório sobre sua “importância para a história e a cultura do local, da região e do País”.

Moradores se mobilizam pelo restauro, sem sucesso. “Poderia ser uma ferramenta importante para o turismo da região, mas está ruindo e ninguém se importa”, diz a dentista aposentada Guiomar Tavares, que frequenta o local desde criança. 

A professora Andressa Ferrari desenvolveu, em 2016, com alunos de Direito de uma faculdade em Ilha Solteira, um projeto de mobilização para restaurar o prédio. Os alunos foram ao local, mas não puderam entrar no casarão por falta de segurança. Conforme relatos da época, o prédios estava com portas e janelas fechadas de improviso, com madeiras compensadas – algumas arrancadas. Parte das paredes perdeu o reboco e as escadas estavam podres. 

O Palácio do Imperador, remanescente das instalações da colônia militar desativada em 1896, tinha o pavimento superior ocupado pela casa do comandante e, no térreo, pelo setor administrativo. O local abrigou repartições municipais, até 1989, quando foi desocupado. Desde então, sucederam-se vários projetos de restauro, mas esbarraram na falta de verba. 

“O prédio está caindo. O problema é que não podemos mexer em nada sem autorização do Condephaat”, afirma o prefeito Fábio Dourado (PP). Ele diz que a cidade, com 4,7 mil habitantes e orçamento de R$ 20 milhões, não tem como bancar a obra, de cerca de R$ 3 milhões.

O Condephaat disse ter analisado projeto para restauro, em 2014, mas as intervenções serão de responsabilidade do proprietário: a prefeitura de Itapura. 

Armas. Em Iperó, remanescentes da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, onde foram produzidos sabres, facões e outras armas usadas por soldados brasileiros, também estão deteriorados. A fábrica, criada em 1810, foi a primeira siderúrgica do País e produzia ainda arados, pregos e enxadas. Em 1871, a princesa Isabel e seu marido, Conde d’Eu, foram à fábrica para agradecer aos operários pela fabricação de armas e munição. 

O conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O núcleo histórico, na Floresta Nacional de Ipanema, é gerido pelo Instituto Chico Mendes (ICMBio) e aberto a visitas.

A Casa das Armas Brancas, prédio mais imponente do conjunto, está com séria infiltração por causa do mau estado da represa que produzia força hidráulica para máquinas da época. Já a 3.ª Oficina de Refino do ferro foi escorada a pedido do Iphan pelo risco de desabar. A construção está interditada para visitação.

O Iphan disse que não há no momento projeto em análise para recuperar o patrimônio de Iperó. Uma parte dos bens históricos, diz o ICMBio, foi restaurada entre 2006 e 2013, mas não há verba prevista para o resto. 

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