Deficiente critica calçada acessível da Amaral Gurgel

Em um trecho, passeio entregue neste mês após reforma de R$ 930 mil direcionou professor cego para muro de lanchonete

JULIANA DEODORO, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2012 | 03h03

Depois de dois anos de obras de readequação, a calçada da Rua Amaral Gurgel, no centro, foi entregue neste mês. O projeto, aprovado pela Comissão Permanente de Acessibilidade da Secretaria da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, teve orçamento de R$ 930 mil e previa calçadas acessíveis, com piso em concreto moldado e canteiros de árvores perto das guias.

A pedido do Estado, o professor de informática da Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva), Francisco Carlos Batista, de 43 anos, percorreu um trecho da via, entre a Rua Marquês de Itu e a Avenida Duque de Caxias, para conferir e testar a acessibilidade das calçadas.

Assim que saiu do carro que o levou ao local, Batista ficou confuso: o piso tátil de alerta (que tem círculos em alto relevo) não era conectado ao direcional (que tem listras e indica o caminho a ser percorrido). Depois de rastrear o chão com a bengala à procura dos obstáculos e de encontrá-los, outra surpresa: o piso direcional o levava diretamente à parede de uma lanchonete. "Qual foi a ideia de quem colocou isso aqui?", questionou.

Auxílio. Com ajuda, o professor encontrou o caminho pela calçada. Segundo ele, o comum é que o piso siga em linha reta até o fim do quarteirão pelo meio do passeio, protegendo o deficiente visual de obstáculos como orelhões e vigas na entrada de edifícios.

De acordo com a secretária executiva da Comissão de Acessibilidade da Prefeitura, Silvana Cambiaghi, o piso é colocado dessa forma para direcionar o deficiente até o muro mais próximo, que poderá ser usado como referência (veja norma ao lado). "Em calçadas estreitas, só colocamos o piso direcional na entrada de garagens para a pessoa que estiver sendo guiada pelo muro não entrar no local sem querer", explica.

Batista, afirma, no entanto, que, quando o piso fica muito próximo de muros ou rampas, ele pode fazer com que o deficiente se machuque. Na porta de um estacionamento, por exemplo, o professor se chocou contra uma parte do muro. Mais adiante, parou quando o piso foi interrompido por uma boca de lobo. "Em vez de ajudar, esse piso só atrapalha. Seguindo por ele, você pode ficar perdido", diz. "Além disso, é fácil bater o joelho ou o rosto nas paredes e muros. Nunca passei por uma calçada assim."

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