Defesa de Gil Rugai exibe falha da perícia

Instituto de Criminalística mostrou pé errado do acusado de matar pai e madrasta

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2013 | 02h03

No primeiro dia do júri de Gil Rugai, de 29 anos, acusado de matar o pai e a madrasta a tiros, os advogados de defesa revelaram ontem que o Instituto de Criminalística cometeu uma falha. O problema estaria na animação produzida para comprovar que a marca de pé encontrada em uma porta arrombada era de Gil. O vídeo mostra o pé errado. Enquanto na porta havia a marca de um pé direito, a simulação traz a de um pé esquerdo.

Filho mais velho de Luiz Carlos Rugai, de 40 anos, Gil é acusado de atirar no pai e na madrasta, Alessandra de Fátima Troitino, de 33, em 28 de março de 2004. Segundo denúncia do Ministério Público Estadual, o réu matou o casal por vingança após ter sido descoberto um desfalque de R$ 150 mil feito por ele na produtora de vídeo da família. O julgamento deve durar de quatro a cinco dias. Até seu fim, 15 testemunhas devem ser ouvidas.

Ontem, a prova pericial sobre o arrombamento foi questionada pela defesa. A porta da sala de TV onde se escondiam as vítimas foi aberta com um chute e a marca de pé encontrada é atribuída pela acusação a Gil. O perito Adriano Yonanime classificou de "lapso" a falha apontada pelos advogados de defesa Thiago Anastácio e Marcelo Feller. O equívoco consta dos autos desde o ano do crime, quando o laudo pericial foi entregue à Justiça.

Para a defesa, trata-se de erro primário que tira a credibilidade da denúncia. "Até o fim deste júri ficará claro que toda a denúncia é infundada", disse Anastácio. O perito Ricardo Molina, assistente da defesa, afirmou que um pé nunca é igual ao outro. "Esse laudo não prova absolutamente nada. A acusação não sabe nem sequer se o sapato usado durante a perícia foi ou não usado por Gil naquela noite", afirmou.

O assistente do promotor Rogério Zagallo, o advogado Ubirajara Mangini Pereira, no entanto, amenizou a falha apontada em plenário. Segundo ele, a perícia não está baseada apenas em uma animação. Pereira afirmou que outros laudos atestam a compatibilidade entre o pé de Gil e a marca na porta.

Argumentação. Uma lesão no pé direito de Gil é parte dos argumentos apresentados pela acusação para colocar o réu na cena do crime. Segundo o promotor, o jovem arrombou, sim, a porta e o pontapé teria provocado a lesão.

Durante testemunho, o médico legista do IC Daniel Romero Munhoz confirmou o machucado, mas não assegurou que ele tenha sido resultado do pontapé. Segundo o perito, o sinal pode ter várias causas e, por isso, não é possível confirmar nem negar a tese da acusação.

Yonanime, por sua vez, insistiu na tese da acusação durante seu depoimento. "A impressão do pé do réu é compatível com a marca na porta", afirmou o perito. Segundo ele, a compatibilidade é reforçada pela sobreposição de imagens feitas em laboratório da USP, por estudos biomecânicos e por profissionais do Hospital das Clínicas.

Em longo depoimento, Yonanime disse que Gil, apesar de baixo, teria condições de chutar a porta a 0,78 metro - altura da marca constada pela perícia. A afirmação foi reforçada por um suposto professor de jiu-jítsu do réu. Para a defesa, as provas apresentadas pela acusação não se sustentam. Feller e Anastácio insistem no fato de que a estatura e o porte físico de Gil o impediam de ter força suficiente para derrubar uma porta com apenas um chute.

Além da falha do perito, a defesa também revelou ontem que o pedaço da porta na qual Gil teria dado o pontapé desapareceu. A prova consta do processo, mas não está disponível para que seja feita uma contraprova.

Tranquilo. De terno escuro, cabelos curtos e semblante calmo, o réu acompanhou do plenário os depoimentos do primeiro dia de julgamento. Sem demonstrar qualquer emoção - nem quando o vigia noturno da rua confirmou tê-lo visto deixar a cena do crime -, ele ouviu atentamente às explanações de seus advogados e só se movimentou quando imagens da rua onde as mortes ocorreram apareceram no telão.

Gil leva uma vida pacata. Não trabalha nem estuda. Mora com a avó materna, em Perdizes, zona oeste, e tem como atividades rotineiras apenas andar de bicicleta e ir à missa. Na entrada do Fórum da Barra Funda, por volta das 10 horas de ontem, Gil disse apenas estar "confiante e tentando se manter confiante". Questionado sobre a tese da acusação, ele disse que "não há provas contra".

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