Defesa de agredido em supermercado quer apurar tortura

Para advogados, crime em hipermercado foi mais grave que lesão corporal

Fernanda Aranda, O Estado de S. Paulo,

27 de agosto de 2009 | 09h54

Os advogados que defendem Januário Alves Santana - vigilante negro que há 15 dias foi espancado por seguranças dentro do supermercado Carrefour em Osasco, acusado de roubar o próprio carro EcoSport - pediram na quarta-feira, 25, que o inquérito policial aberto para apurar o caso investigue o crime de tortura e não de lesão corporal. Eles pedem também audiências com a Secretaria de Justiça de São Paulo e com o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), além de representantes das secretarias nacional pela Igualdade Racial e Direitos Humanos, com o objetivo de ecoar que Santana foi mais uma das vítimas do racismo brasileiro.

"Ele é um símbolo de um problema que ninguém quer ver, uma doença chamada racismo, que continua embaixo do tapete", afirmou um dos advogados, Silvio Luiz de Almeida, que esteve no 6º DP de Osasco, onde o caso é investigado. "Pedimos aos delegados que o crime seja enquadrado como tortura, porque foi exatamente isso que aconteceu. Januário foi constrangido, gravemente ameaçado, espancado para confessar um crime que não cometeu, exatamente a definição legal de tortura", completou outro defensor de Santana, Dojival Vieira. Os advogados vão processar o supermercado e o Estado, por causa da ação policial considerada negligente e preconceituosa.

No dia 7, Santana foi ao Carrefour com a família, após o expediente como vigilante na Universidade São Paulo (USP). A filha caçula, de 2 anos, dormia, e o mais velho, de 5, queria iogurte. A mãe levou o menino às compras. O pai ficou no EcoSport, único luxo permitido dentro do orçamento mensal curto. Tanto que o veículo foi parcelado em 72 vezes e, até agora, só 21 parcelas estão quitadas. "Não tenho diploma, sou negro, não uso gravata. Não foi a primeira vez que acharam incompatível eu estar em um carro assim. Mas, desta vez, a reação foi violenta", contou ele ontem, na delegacia. Santana está sem o dente da frente e com uma fratura na face, que será operada nesta quinta no Hospital Universitário.

De acordo com Santana, enquanto estava no estacionamento, viu uma moto com o pisca alerta disparado. Ele saiu de seu carro para ver o que ocorria, quando foi abordado por "cinco ou seis homens". "Não perguntaram nada e começaram a me bater, com a arma no meu rosto. Perguntei se eram bandidos ou policiais, porque estava na dúvida. Quando responderam que eram vigias, cheguei a ficar aliviado, pois meus 'colegas' entenderiam o mal-entendido. Me enganei." Santana diz que continuou apanhando e ouvindo que "era impossível um neguinho ter um EcoSport".

A chegada da polícia não aliviou a humilhação, conta ele. "Continuei sendo suspeito de ter roubado meu próprio carro. Finalmente consegui mostrar os documentos . Eles tinham tanta certeza de que eu era criminoso que arrebentaram comigo em frente às câmeras, sem pudor." As imagens do circuito de segurança foram entregues à polícia.

Enquanto isso, a versão da polícia no BO é a de "tumulto", "briga entre clientes do estabelecimento." A versão do filho de Santana, que a tudo assistiu, é de heroísmo: "Meu pai precisou brigar com cinco bandidos. Foi difícil, mas ele venceu." Santana está 8 kg mais magro, abatido, com insônia e sem trabalhar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.