D&D abre mostra nem tão acessível assim

27 profissionais montaram ambientes para deficientes; alguns falharam nas adaptações

Valéria França, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2010 | 00h00

Começa hoje a 1.ª Mostra Casa e Corporativos Acessíveis, no Shopping D&D, especializado em decoração, no Brooklin, zona sul. O evento reúne 27 arquitetos e decoradores, que receberam o desafio de montar espaços preparados para acomodar visitantes com qualquer tipo de limitação física. E isso quer dizer construir ambientes adaptados às crianças, aos idosos e aos deficientes físicos.

Antes de a mostra abrir as portas, o Estado convidou a vereadora Mara Gabrilli (PSDB), de 42 anos, para visitar a exposição. Tetraplégica há 16 anos, desde que sofreu um acidente de carro, ela poderia avaliar melhor se os ambientes são acessíveis de fato. Mara foi lá conferir. Encontrou boas ideias, mas pôde notar a falta de intimidade dos arquitetos com o assunto, que se revela em detalhes que passam desapercebidos para o público em geral, mas que dificultam muito a vida do deficiente físico.

No espaço feito em homenagem à vereadora, por exemplo, as arquitetas Solange Marchezinni e Cintia Padovan desenharam uma mesa, com forma arredondada, sustentada por um pé lateral, que deixa espaço livre para a cadeira de rodas. A altura, porém, é mais baixa que o ideal, e Mara não pôde entrar com sua cadeira. "Todas essas medidas estão numa cartilha universal que especifica os ambientes acessíveis", diz ela.

Nove dos ambientes planejados estão espalhados pelos andares do shopping e 12 deram origem a uma casa térrea montada na praça de alimentação. E foi lá que Mara encontrou seu maior empecilho: na porta, uma escada com quatro degraus. O elevador instalado ao lado não estava funcionando. Mara teve de ser carregada. Constrangedor? "Não. Inseguro. Eu posso cair da cadeira." Segundo Mara, o certo seria haver uma rampa. "Todas as pessoas devem entrar pelo mesmo acesso. O elevador segrega. E ele sempre pode quebrar", afirma. Na antevéspera da abertura, Mara tentou, em vão, convencer a idealizadora do evento, Acácia Lischewski, do grupo Ciranda Cultural, a construir uma rampa de acesso. "No próximo pensaremos nisso", prometeu Acácia.

Os decoradores se preocuparam em pesquisar no mercado acessórios adaptados de fábrica.No banheiro do casal, por exemplo, o arquiteto Robson Gonzales instalou uma pia com altura regulável. Marcos Jordão fez uma sala de home theater com aparelhos ativados com o comando de voz. "Em casa tenho de pedir para a minha assistente mudar os canais da TV", afirma a vereadora.

Zona de perigo. As paredes do banheiro do casal, no entanto, são de granito rústico. "Pensar em entrar num ambiente assim assusta. Costumo ser carregada de um lado para outro. É fácil braços e pernas baterem nas paredes. Sairia toda ralada." O mesmo acontece quando há quinas pontudas. "Na maioria dos ambientes não foram arredondadas", diz Mara. "E não há equipamentos para deficientes auditivos." Qual a nota que a vereadora dá para a mostra? "Seis."

Serviço

CASA E CORPORATIVOS ACESSÍVEIS. ATÉ 25/7. SHOPPING D&D. AVENIDA DAS NAÇÕES UNIDAS, 12.555. TELS.: 3043-9000 / 3043-9650. DAS 10H ÀS 22H. GRÁTIS

QUEM É MARA GABRILLI

VEREADORA PAULISTANA

Em 2005, Mara Gabrilli se tornou a primeira secretária da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da cidade de São Paulo. Atua na Câmara Municipal da capital paulista desde fevereiro de 2007. Em 2008, foi reeleita com 79.912 votos - com isso, se tornou a mulher mais votada no Brasil para o cargo e a quinta entre os 55 vereadores paulistanos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.